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Sobre Ritos e Preces: Mas por que não fez missa?  

Estamos no fim da primeira semana da Quaresma. Nesta peregrinação rumo às festas pascais, temos a oportunidade de ver corrigidos os nossos vícios, elevados os sentimentos, fortificada a fraternidade, conforme reza o Prefácio IV para este tempo. Tudo isso vivido como fruto do Espírito que age no Corpo do Filho Amado que toma forma na assembleia dos fiéis. Como consequência, gera-se, celebrando nestes dias, uma comunidade nova, rejuvenescida nas águas do Batismo nas quais um dia foi imersa.

Tais celebrações são cumprimento da recomendação evangélica de dedicar-se mais intensamente à oração que reverberou em nossos ouvidos na Quarta-feira de Cinzas. Sem intimismos vãos e formalismos estéreis, os discípulos e discípulas sentem-se, então, estimulados a reunir-se para progredir no conhecimento de Cristo, buscando corresponder-lhe o amor ofertado mediante uma vida mais santa (cf. Oração do Dia do 1º Domingo). Estas celebrações, no entanto, não podem restringir-se à Eucaristia. A Igreja recomenda oficialmente no seu magistério mais eloquente, as palavras de um Concílio ecumênico, que aos fiéis se ofereça a possibilidade de celebrar a Palavra de Deus nos tempos chamados “fortes” – Advento e Quaresma – porque a via ritual é tem também forte conotação pedagógica (cf. Sacrosanctum Concilium 35,4; 105 e 109).

Sem querer diminuir em absolutamente nada o valor e importância da celebração eucarística, conforme reafirmado pelos padres conciliares na Constituição Litúrgica, é um erro flagrante reduzir a oração litúrgica mormente à Missa. Infelizmente, as comunidades ainda têm muito a caminhar quanto à valorização da Celebração da Palavra de Deus que, na maioria das comunidades cristãs católicas do país é a única oportunidade para consagrar o Domingo, dentro da disciplina ministerial vigente, na qual somente homens não-casados podem ser admitidos ao sacramento da Ordem. Mas, para além deste contexto, é uma pena que a riqueza e pluralidade de formas rituais que a Igreja dispõe para fazer progredir a vida cristã em consonância com o Evangelho, não tenha ainda recebido a devida atenção.

O transtorno se estende da forma celebrativa ao menosprezo da atuação ministerial dos fiéis batizados não-ordenados. O ministério da presidência na Liturgia não é propriedade de bispos, padres e diáconos. É um dom do Espírito às assembleias, expressão qualificada da comunidade eclesial. O catequista, por exemplo, é chamado a presidir nos seus grupos de catequese as bênçãos que lhe são próprias; os pais e mães de família em suas casas, igualmente; ministros e ministras batizados (as) não ordenados podem (e devem) presidir sacramentais como as Exéquias e bênçãos nas casas; o Ofício Divino, oração principal da Igreja ao lado da Eucaristia, não necessita da presença ordenada etc. Evidentemente isso não dispensa a responsabilidade dos ministros ordenados e a mútua colaboração entre ministros ordenados e não ordenados. Na verdade, trata-se de recuperar uma visão muito mais abrangente, complexa e enormemente mais rica tanto da Liturgia quanto da ministerialidade na Igreja. Sonhemos. É tempo favorável para rejuvenescer na mentalidade e sentimentos.

P.S.: Ajude-nos com contribuições e dúvidas pelo e-mail: querosabermais.sobreritosepreces@arquidiocesebh.org.br

Padre Márcio Pimentel
Presbítero, teólogo liturgista,
membro do Secretariado Arquidiocesano de Liturgia
e da Celebra – Rede de Animação Litúrgica