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Pastoral Urbana – artigo dos padres Jean Richard Lopes e Renato Alves de Oliveira

Entre os dias 5 e 7 de outubro de 2021, ocorreu, de forma online, o I Simpósio Internacional de Teologia Prática, com o foco na Pastoral Urbana, organizado pelo Departamento de Teologia do IFT/PUC Minas. Com o apoio de teólogos, teólogas e pastoralistas, discutiu-se sobre o conceito e os desafios da Pastoral Urbana no mundo atual. De forma sintética, pode-se dizer que a Pastoral Urbana se refere às atividades de evangelização, de transmissão e cultivo da fé, e com o compromisso sociotransformador da Igreja, desenvolvido segundo o modo de Jesus – segundo o Evangelho –, no mundo urbano. Para além de questões territoriais, o ambiente urbano constitui uma mentalidade geradora de cultura, de estilos de vida heterogêneos, que permeia todas as modalidades relacionais – social, política, econômica e religiosa –, influenciando, inclusive, aqueles que não habitam na cidade.

De igual modo, a Pastoral Urbana propõe-se como uma perspectiva transversal na vida da Igreja, que sente a necessidade de abrir-se à complexidade desse ambiente plural e desafiador. A atualidade do tema do simpósio surge da necessidade de desenvolver novas práticas, novas linguagens e propostas de espiritualidade que, sempre fundadas no Evangelho, contribuam com a revalorização da pessoa e da comunidade, especialmente na corresponsabilidade pela casa comum.

Um amplo espaço foi dedicado à compreensão da configuração atual do mundo urbano e dos sujeitos urbanos. Como cultura, o urbano expressa-se de forma mais imediata nas cidades, sobretudo nas grandes metrópoles, onde o local e o global se encontram. Uma realidade cada vez mais inchada, em constante mutação, com inúmeros desafios sociais, políticos e antropológicos, amplificados pelas novas possibilidades tecnológicas e de comunicação. Tudo isso se reflete também no âmbito religioso, cada vez mais plural. Habituada, por tradição, a ocupar o centro – basta pensar na velha urbanização de muitas cidades brasileiras, com a matriz paroquial na praça central da cidade –, a Igreja nem sempre se encontra à vontade nesse ambiente. Não faltam, de fato, experiências de comunidades paroquiais ou de grupos cristãos que, em vez de apostar na sua capacidade de criar redes – comunidade de comunidades –, levantam muros de separação, isolando-se do mundo. A Pastoral Urbana busca despertar essas realidades eclesiais para a consciência de que Deus também habita os espaços urbanos e de que é necessário comprometer-se com a vida real das pessoas e sintonizar-se com a cidade em todos os níveis, da periferia caracterizada pela marginalização à expressão cultural mais erudita, passando pelas novas formas de agrupamento, como os coletivos.

Num mundo cada vez mais globalizado e interconectado, o urbano torna-se o espaço da multiplicidade de sujeitos. Por isso, o interlocutor urbano, ao qual essa comunidade de fé se dirige, exige ser respeitado na sua condição de “outro”. Os indivíduos clamam pelo direito de ser eles mesmos, de desenvolver as suas identidades. Esse fator tremendamente aberto e legítimo desafia a evangelização. Nota-se, ainda, a necessidade de recriar espaços de convivialidade que não sejam reprodução de uma experiência massificadora, de número, mas acolhedora das diferenças e favorecedora do diálogo, como Jesus no Evangelho, diante da sociedade do seu tempo. O mesmo sujeito investido da condição de cidadão e cidadã urbanos habita o espaço digital, o qual permeia também aquele físico, por meio dos aparelhos e das plataformas digitais. A era dos sinos que, ao ser tocados em horas marcadas, atraia a atenção das pessoas ao redor da igreja, passou. Agora, é preciso ocupar esse espaço virtual, aprendendo a sua linguagem e técnica. Já existem muitas iniciativas nesse sentido. Todavia, pergunta-se se elas são competentes e capazes de expressar a pluralidade do mundo para o qual são direcionadas.

A dificuldade, já acenada, da Igreja de situar-se no mundo urbano, na sua atual configuração, é identificada no modo como algumas pastorais – atividades organizadas por setores, categorias – se propõem. Herdeiras da mentalidade rural, perdidas diante da velocidade do mundo urbano e com medo de perder a identidade, optam por uma atitude de manutenção, isto é, de conservação daquilo que já se conhece como certo e seguro. O descompasso com o mundo e com a história é inevitável. A modalidade comunicativa escolhida, às vezes de combate e não de diálogo, seguida de uma proposta caducada de comunidade, cria o risco de tornar a proposta do Evangelho irrelevante para o ser humano contemporâneo. Há de se reconhecer também outro extremo, o da identificação plena com a realidade. Uma postura acrítica que não favorece o surgimento de um diálogo honesto e de fato construtivo, iluminado pelos valores do Evangelho e, por isso, com potencial de transformação e conversão.

Entretanto, não faltam também experiências germinais de propostas inovadoras e abertas, dispostas a reconhecer as inúmeras oportunidades e motivos de esperança presentes no mundo urbano. Atentas aos processos históricos e aos fenômenos sociais, essas experiências se propõem, com discernimento, desenvolver uma práxis que possa atender as aspirações das subjetividades e, ao mesmo tempo, da comunidade dos cidadãos e cidadãs urbanos, com atenção especial a uma ecologia integral. Ao final, muitas janelas ficaram abertas, sinal de que há muito ainda a que fazer.