Uma reflexão sobre a Oração Eucarística que nos orienta para a finalidade última de nossas eucaristias, afirmando que o corpo sacramental está orientado à nossa transformação “em um só corpo”, o corpo eclesial.
(CESARE GIRAUDO – Redescobrindo a Eucaristia)
Diálogo invitatório – De origem bíblico-judaica, tem a função preliminar constante em todas as preces eucarísticas: Estabelecer a relação cultual entre a Assembléia e Deus, pondo o parceiro humano em orientação de mente e coração para com o parceiro divino. Trata-se de uma exortação para entrarem na tensão relacional requerida pela celebração da eucaristia. Consta de três elementos:
O senhor esteja convosco – Ele está no meio de nós
A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós (2Cor 13,13) – E com teu Espírito.
(Ou) Coração ao alto – Nós o temos no Senhor.
Demos graças ao Senhor nosso Deus – É digno e Justo.
1- Elementos da Oração Eucarística
A prece eucarística se articula em uma seção de Ação de Graças e uma seção de súplica.
A Ação de Graças – um louvor intenso e apaixonado, no qual evoca a história de relações que é história da fidelidade de Deus e história de nossas infidelidades, história de nossas quedas e história da irrenunciável vontade divina em fazer-nos levantar de novo. Fortalecida por essa premissa, a Igreja em oração poderá depois dirigir a Deus sua súplica confiante.
AÇÃO DE GRAÇAS
Uma reflexão sobre a teologia do prefácio, canto do Sanctus e o Pós-sanctus.
Inicia-se com o prefácio – início do discurso orante.
Prefácio = Vem do verbo prae-fari, que significa “proclamar”.
O prefácio e a introdução dos santos – 4ª oração
“Na verdade, ó Pai……Até Santo, Santo, Santo…”
Esse prefácio tem o tema La luz dominante. Resume bem o mistério de Deus. Deus é louvado porque, embora “habitando uma luz inacessível” quis circundar-se de criaturas para alegrá-las com o clarão de sua luz.
Sanctus – O emprego do Sanctus na liturgia judaica é atestado em primeiro lugar por uma oração que se recita duas vezes ao dia, quando o sol desponta no horizonte e quando se põe. Nessa oração, Deus é glorificado como criador da luz, do sol, da lua e das estrelas. Enquanto as criaturas astrais louvam a Deus dando luz à terra, as criaturas angélicas cantam sem cessar um hino que une o Sanctus dos Serafins (cf.6.3) e o Benedictus dos querubins (cf. Ez 3,12).
O cristianismo herdou, portanto, da espiritualidade judaica o hino angélico e sua rica teologia. Uma boa compreensão da teologia do Sanctus é oferecida na anáfora de São Tiago, que é a oração da antiga Igreja de Jerusalém. Além da menção ao louvor que Deus recebe das criaturas cósmicas e angelicais, aparece também a menção à Jerusalém Celeste.
Pelo canto do Sanctus, a liturgia eucarística convida a voltar um olhar confiante, em particular sobre nossos defuntos, que naquele momento, estão em posição privilegiada com relação a nós. Com o Sanctus, que nos sintoniza com a Jerusalém Celeste, nossas vozes se fundem e se confundem num coro imenso que canta a grandeza de Deus.
Pós-Sanctus – Uma continuação do louvor. Apresenta uma profundidade histórico-salvífica verdadeiramente exemplar. Depois da comemoração do Evento de Adão, sucede-se a comemoração, primeiro da história veterotestamentária e, então, da história neotestamentária. Esta última percorre os momentos fortes da cristologia histórica, da encarnação a Pentecostes, isto é, até o envio histórico do Espírito de santificação.
SÚPLICA
Primeira Epiclese (significa súplica, petição, pedido) – “epiclese para a transformação das oblatas”. Esse pedido empenha o poder divino para que opere a transubstanciação e introduz o quinto elemento, a narrativa da instituição, com a qual forma a unidade em vista da transubstanciação. Reconhecemos que a consagração é o coração da prece eucarística. Todos são convidados a cada dia redescobrir a interação mútua e imprescindível entre esse coração, que contém em si o mistério da presença real permanente, e todos os outros elementos da prece eucarística.
ANAMNESE (significa memorial, memória) – Ela é introduzida pela admonição inicial (advertência pública):“Mistério da fé”.
A anamnese é a oferta do memorial eucarístico. Com ela, a Igreja em oração adere ao mandamento de Jesus: “Fazei isto [o sinal do pão e do cálice] em memória de mim [morto e ressuscitado]. Primeiro, pela “declaração anamnética” (“celebrando a memória…”) torna presente a Deus Pai que está fazendo o memorial da morte e ressurreição do senhor; depois, com a “declaração ofertorial” (“nós vos oferecemos…”), oferece ao Pai o pão e o cálice eucarísticos, o memorial da nova aliança. Assim, memorial e oferta são as duas dimensões próprias e imprescindíveis de toda a “anamnese”.
EPCLESE – Como sétimo elemento a epclese para a transformação escatológica dos comungantes. “E nós vos suplicamos…….”. Segundo o teólogo medieval Tomaz Netter von Waldem (1430), a Igreja é como o “corpo místico de Cristo no qual cada cristão é transubstanciado por meio da recepção da eucaristia”, nós nos valemos dele para descrever a segunda epiclese como súplica por nossa “transubstanciação” no corpo eclesial, graças exatamente a nossa comunhão no corpo sacramental. E assim, tornamo-nos substancialmente assembléia escatológica, membros harmoniosamente unidos a Cristo, “a cabeça do corpo que é a Igreja” (Cl 1,18).
INTERCESSÕES – esse pedido pela transformação “num só corpo” é ampliado a todas as outras porções da Igreja que, no momento da celebração, não estão fisicamente presentes.
DOXOLOGIA FINAL OU CONCLUSÃO DE LOUVOR: Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a vós Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda honra e toda glória, agora e para sempre. Pedimos a Deus que nos introduza ao reino definitivo para podermos glorificá-lo sem fim.
PORQUE COMUNGAMOS?
Segundo São João Crisóstomos – celebramos a eucaristia para obter “a lucidez do espírito, a remissão dos pecados, a comunhão com o Espírito Santo, a plenitude do reino do céu, a confiança perante vós”.
Em outras palavras (segundo Giraudo): a presença real não nos foi dada só para que possamos adorar a Cristo sob as espécies eucarísticas; a comunhão não nos foi dada principalmente para que possamos encontrar e receber no coração o amigo Jesus, a quem fazemos, por alguns instantes, uma fervorosa e afetuosa companhia. O Senhor não instituiu a eucaristia em função de nossos olhos que a contemplam. Ele a instituiu em função de nossas bocas que se nutrem dela: instituiu-a para que a comêssemos. Esse é o ensinamento autorizado da epiclese eucarística, considerada simultaneamente como súplica pela transformação das oblatas e como súplica por nossa transformação escatológica. As duas epicleses constituem uma súplica teologicamente densa que explicita o porquê de nossas celebrações eucarísticas e de nossas comunhões:
Trata-se do grande pedido, com o qual a assembléia, pela boca de seu presidente, pede ao Pai que envie o Espírito Santo sobre o pão e sobre o vinho para transformá-los no corpo sacramental (“epclese sobre as oblatas”), a fim de que todos os que receberem a comunhão sejam transformados “num só corpo”, o corpo eclesial (“epclese sobre os comungantes”).
Escatologia = Estuda as coisas que devem acontecer no fim dos tempos, no fim do mundo. Uma doutrina que trata do destino final do homem e do mundo; pode apresentar-se em discurso profético ou em contexto apocalíptico.
Neuza Silveira de Souza. Coordenadora do Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de Belo Horizonte.