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No Dia da Amazônia: CNBB repercute artigo de dom Walmor “Votos de vida ou morte”

Nesta segunda-feira, 5 de setembro, Dia da Amazônia, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) repercutiu o artigo ‘Votos de vida ou morte’, do arcebispo de Belo Horizonte e presidente da CNBB, dom Walmor Oliveira de Azevedo, publicado no Jornal O Globo, em 28 de agosto. No texto, o Arcebispo destaca a inter-relação dos problemas que afetam as metrópoles com as matas brasileiras

“Bem sabemos que a Amazônia está entre os principais patrimônios do País. Sua importância é muito maior que qualquer interesse ligado ao acúmulo de dinheiro. A sua devastação leva a consequências graves que não se restringem aos povos da floresta – naturalmente os primeiros a sofrerem”.

No artigo, dom Walmor aponta ainda que neste ano eleitoral, o cidadão brasileiro não pode considerar que a devastação da Amazônia é um problema distante.

“Quando são consideradas a interdependência entre tudo que existe no planeta, a singularidade e a preciosidade da Amazônia, facilmente se reconhece um critério importante para bem escolher dentre os que disputam cargos eletivos: o compromisso com a proteção da Amazônia”.

Dia da Amazônia

A data está ligada à instituição da Província da Amazônia, em 1850, por Dom Pedro II. É ocasião para refletir sobre a importância do bioma amazônico e a necessidade de sua preservação.

Leia o artigo na íntegra:

Votos de vida ou morte

Eleições: momento decisivo de escolhas, uma aposta no bem de todos e de novos rumos para a sociedade brasileira, ferida pela gravidade da desigualdade social e pelos riscos impostos à Democracia. A escolha de candidatos exige grande responsabilidade balizada por criteriosa busca por informações, para que a força soberana do povo aponte rumos novos pela representação política séria e de qualidade. E o que ocorre em determinado contexto por vezes territorialmente distante da maioria da população, é entristecedor: o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais revela que, somente nos seis primeiros meses de 2022, a Amazônia perdeu para o desmatamento uma área três vezes maior que a do Estado do Rio de Janeiro. Outro estudo sério, conduzido pelo Conselho Indigenista Missionário, considerando dados de 2021, denuncia ofensiva contra direitos indígenas e ataques aos seus territórios. Eis o grande desafio: reconhecer que os problemas nas metrópoles e nas matas se inter-relacionam, e são resultado de modelos desumanos e desumanizadores do exercício da política. Neste ano eleitoral, cada cidadão tem decisiva oportunidade de efetivar profundas mudanças pelo voto, com escolhas conscientes.

Bem sabemos que a Amazônia está entre os principais patrimônios do País. Sua importância é muito maior que qualquer interesse ligado ao acúmulo de dinheiro. A sua devastação leva a consequências graves que não se restringem aos povos da floresta – naturalmente os primeiros a sofrerem. Impactam toda população brasileira, inclusive a que reside nas grandes metrópoles, sensíveis às enchentes e às estiagens ocasionadas pelas mudanças climáticas, às pandemias provocadas pelo desequilíbrio ambiental, à progressiva escassez hídrica. A exploração predatória que ameaça a Amazônia é afronta a cada brasileiro e um grave desrespeito à humanidade. O Papa Francisco indica na Carta Encíclica ‘Laudato Si’ – sobre o cuidado com a casa comum, que “tudo está interligado”. Os problemas e desafios ambientais estão intrinsecamente relacionados às vergonhosas desigualdades sociais, tão acentuadas na sociedade brasileira.  

Neste ano eleitoral, o cidadão brasileiro não pode considerar que a devastação da Amazônia é problema distante. Quando são consideradas a interdependência entre tudo que existe no planeta, a singularidade e a preciosidade da Amazônia, facilmente se reconhece um critério importante para bem escolher dentre os que disputam cargos eletivos: o compromisso com a proteção da Amazônia. Votar em quem somente pensa no lucro de alguns grupos e não se importa com as consequências da destruição do meio ambiente é alimentar a morte com a ponta dos dedos, diante das urnas. Buscar nomes verdadeiramente comprometidos com a defesa do planeta – e portanto de toda a humanidade – é atitude verdadeiramente cidadã, a favor da vida. 

O ano eleitoral é especialmente determinante: oferece o poder garantido pelo voto, capaz de levar às instâncias de decisão os que buscam ocupar cargos públicos para promover o bem comum. A partir da leitura da Carta Encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco, pode-se afirmar que o bom político não é aquele que se preocupa com interesses pecuniários, ou que acredita que o poder econômico tem primazia em relação à política. “A política não deve submeter-se à economia”, adverte o Santo Padre. Merece atenção quem verdadeiramente busca preservar a Amazônia, reconhecendo que vivemos em um mundo onde tudo está interligado. Assim, pela força do voto, pode-se defender a vida nas matas e nas metrópoles, exercendo a cidadania que alicerça a caridade política, promovendo a vida em todas as suas etapas, da concepção à morte natural, pela vivência de novos hábitos na casa comum. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte – MG
Presidente da CNBB