Você está em:

Homenagem a padre Pigi: Eu vi um santo- Pe. Raphael do Carmo, mestrando em História da Igreja/Pontifícia Universidade Gregoriana- Roma

Padre Pier Luigi Bernareggi, o padre Pigi

Era início do ano de 2010, manhã de sábado depois de um temporal que caíra por toda noite e, apesar do sol, as ruas estavam ainda molhadas. Levado por seu pai, desce então do Corcel II vermelho, ano 1979, aquele rapaz seminarista da etapa de filosofia, chegando ao bairro Primeiro de Maio, para iniciar a experiência pastoral na Paróquia de Todos os Santos. Junto ao padre de sua infância, Cássio, que tinha sido para ali transferido.

Naquela paróquia outro padre servia. O rapaz não o conhecia pessoalmente, só por ouvir falar de um padre que percorria a cidade sobre sua lambreta. Como resultado da tempestade da noite passada, a Igreja de Santo Antônio ganhou um telhado quebrado pela força do vento. O jovem quis conversar com aquele padre, mas estava ocupado, misturado ao mutirão de paroquianos que tentava organizar aquele prejuízo. “Padre, sou o seminarista que veio para a pastoral”, disse o rapaz, a quem o padre , agachado enquanto retirava cacos de telha da calha, respondeu: “Tá bom, seja bem vindo!”

Pouco a pouco foi vendo quem era aquele homem, de voz mansa, baixinha, andava apressado, com suas roupas sempre muito simples, o Rosário no bolso sempre a postos para ser rezado. Conversava com todos com profunda atenção. Por detrás daqueles óculos de armação amarelada, um olhar longemirante. Certa sexta-feira, de noite, bateu à porta do seminarista convidando-o para uma reunião de sem-casas, e no meio daquele povo sofrido, jogado para aqui e acolá sem ter um teto sobre a cabeça ou obrigado a um pesado aluguel, a voz mansa e baixa se transformara num rugido de leão. Não era o vociferar de uma ideologia política eivada de paixão, mas era o revirar das entranhas de um pastor que naqueles necessitados via mais uma vez Jesus, que não tinha onde reclinar a cabeça.

Era já idoso, tinha lá suas dores como companheiras de cada dia, mas isso não o deixava desanimar diante de alguém que precisava da mão estendida. Num sábado de manhã, após ter sido acordado pelo padre com uma batida na porta, onde só ouvira o chamado: “Laudes!”, rezaram juntos o seminarista e o padre, tomaram café, e o padre logo pegando seu embornal, lançou seu boné à cabeça e dizendo que iria a uma casa qualquer, perguntou se o seminarista o acompanharia. Não queria muito ir, misto de desânimo com trabalhos do curso de filosofia pra fazer, mas foi e lá lhe fora ministrada uma aula de cristianismo.

Era o acompanhamento a um jovem senhor que, vindo do interior e tendo tido um AVC, não tinha quem dele cuidasse. Havia estado sujo, desnutrido, sem tomar os remédios prescritos. Aquele padre idoso trocou as fraldas, no embornal colocou as roupas sujas das necessidades fisiológicas do irmão, deu banho, ajeitou tudo. Fazia o trajeto três, quatro vezes ao dia, se precisasse até mais. E quando à beira do tanque lavava aquelas roupas, um sorriso brotava do canto da boca.

Poderia escrever livros sobre as experiências de verdadeira fé encarnada que lá foram vividas, de como aquele semeador semeava, sem alardes, a Boa Nova do Reino, como ajuntava e não dispersava os irmãos que Cristo lhe confiava.

Chegando ao final do percurso formativo, aquele seminarista, após o período do diaconato, foi ordenado presbítero, num sábado, vinte e dois de março de 2014. Quem o revestiu com as vestes presbiterais foram padre Cássio e aquele outro padre, Pigi. Ao ouvido, ele disse: “Bem vindo ao presbitério de nossa Igreja!”. Era eu o tal seminarista que viu padre Pigi fazer tudo aquilo, na máxima discrição evangélica, sou eu um dos privilegiados de ter conversado, rezado, convivido com um santo.

Num outro sábado, vinte e três de janeiro de 2021, de longe acompanhei a missa de exéquias de padre Pigi. Não pude estar presente fisicamente à cerimônia, mas não é menor meu sentimento de tristeza. Nem mesmo é menor a certeza de que um dia nos encontraremos no céu, nossa casa. Deus lhe pague padre  Pigi, por tanto bem que semeou por onde passou, por nos fazer estar mais próximos de Deus.

 

Pe. Raphael E. do Carmo

Arquidiocese de Belo Horizonte

Mestrando em História da Igreja pela

Pontifícia Universidade Gregoriana – Roma