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[Artigo] Quando Pedro disse “não” (1) – Padre Márcio Pimentel, Secretariado Arquidiocesano de Liturgia de Belo Horizonte

Crítica ritual e liturgias que deram errado

Introdução

            Ronald Grimes, antropólogo americano, cunhou a expressão “infelicitous performances” para referir­-se ao fato de, nem sempre, os ritos darem certo[1]. Baseando-se na tese de Austin sobre a possível falência dos “atos de fala”[2], Grimes sustenta que a incorrência de erros no âmbito da performance ritual pode resultar no falimento da experiência de modos muito diversos. Por exemplo, mesmo que um rito de fertilidade que não resulta no crescimento da plantação falhe “empiricamente”, pode resultar “fecundo” socialmente. A questão a considerar é que a falência do rito ou de algum de seus elementos altera a experiência daquilo que ele seria mediação. O adjetivo “infeliz” parece-nos bem apropriado para designar estas performances porque a “falência” não é sempre absoluta de modo a considerar-lhe sempre completamente inválido. Ou seja, um rito com erros pode ser “válido”, porém “infeliz”. Numa missa, digamos, durante o rito da comunhão vem distribuído a reserva eucarística, recorrendo-se ao pão consagrado conservado no tabernáculo, não diremos que a comunhão dos fiéis é “inválida”, mas podemos reconhecer um “erro” do ponto de vista da performance ritual. Evidentemente, em certo sentido – aquele do rito – a experiência muda para os atores envolvidos na ação.

A transformação desta experiência não depende exclusivamente do programa ritual, mas do modo como o programa é praticado pelo sujeito eclesial, concretamente falando. Neste sentido, a percepção sobre a experiência vivida dependerá também do nível de habilidade e conhecimento do sujeito em torno da ação que cumpre. Entramos no âmbito da competência ritual, que significa considerar o grau de habilidade das pessoas envolvidas na performance ritual. No caso de uma comunidade cristã católica e sua liturgia estamos nos referindo não só aos ministros, mas consideramos toda a assembleia que toma parte no ato de culto. Embora não possamos prescindir da importância da competência ritual quando falamos em performances rituais “infelizes”, igualmente não podemos esquecer que uma correta aproximação do fenômeno exige observar outros aspectos.

Fazem parte do processo de avaliação de uma performance ritual outras problemáticas ligadas à estrutura social e política do sujeito que celebra, o contexto cultural, a autenticidade do grupo e dos indivíduos, a interação, os conflitos, as ideologias sejam elas coletivas ou individuais[3]. Neste breve trabalho, devemos tratar de algumas condições epistêmico-metodológicas que nos ajudem a visibilizar um procedimento hermenêutico adequado do rito enquanto performance, isto é, na medida em que é praticado por um sujeito coletivo (atores) determinado. Isto é, o rito enquanto ação, enquanto fenômeno e não como mero programa.

[1] Cf. R. Grimes, Infelicitous performances and ritual criticism, Semeia 41 (1988), p. 104.

[2] Cf. J. L. Austin, Come fare cose con le parole, p. 17.

[3] Cf. U. Hüsken, “Ritual dynamics and ritual faillure”, in When Rituals Go Wrong: Mistakes, Failure, and the dinamics of Ritual, p. 342.

 

Padre Márcio Pimentel, presbítero da Arquidiocese
de Belo Horizonte, membro do Secretariado
Arquidiocesano de Liturgia, doutorando em Liturgia
Pastoral pelo Instituto de Liturgia Pastoral da
Abadia de Santa Justina em Pádova-Itália