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[Artigo] Jesus e as primeiras comunidades – Neuza Silveira, Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de Belo Horizonte

Jesus morava na Galileia. No seu tempo havia uma grande concentração de terras. Os Romanos, através de Herodes, confiscavam grandes números de pequenos lotes deixando os camponeses pobres na condição de servos ou de escravos. Jesus critica e denuncia esta situação.

Olhando, no Evangelho, para algumas parábolas que Jesus conta, ao mesmo tempo em que ele critica os grandes latifundiários pelo acúmulo das terras, das colheitas, ele ajuda aos pobres continuarem perseverantes na caminhada, oferecendo sempre uma palavra amiga e ajudando-os a compreender que havia um Deus que os amava.

Uma das parábolas que encontramos no Evangelho de Jesus, segundo Lucas, narra a parábola do rico que, tendo produzido muito e não tendo como guardar sua colheita, ele decide que o melhor seria destruir os celeiros menores e no lugar construí-los maiores para ter onde armazenar sua colheita. Com essa atitude ele pensava que teria alimentos para muitos anos e poderia descansar por muito tempo, sem ter que trabalhar (Lc 12,16-21).

Jesus faz a sua crítica àqueles que sacrificam os valores básicos da vida pelo dinheiro, e pelas coisas imediatas. Jesus criticava a nova lógica do mercado. Estocar os excedentes de produção em grandes armazéns, esperando vender mais caro no ano seguinte.

Jesus analisava essas atitudes e as via como grande exploração, considerando, ainda que por não colocar no mercado os produtos para venda, gerava uma escassez constante dos produtos no mercado e os preços mantinha sempre elevados para os pobres.

Na crítica de Jesus há uma alerta para nós, pois quando agimos insensatamente, deixando de ajudar o próximo, e pensando em acumular bens, essa atitude não agrada a Deus.

Vejamos outra parábola: Mt 21, 33-26.

Uma outra parábola que nos chama atenção é a do proprietário de uma vinha, conhecida como parábola dos vinhateiros homicidas. Jesus conta que um proprietário de terra comprou uma vinha, cercou-a, abriu nela um lagar, ou seja, uma espécie de tanque grande, às vezes cavado em rocha, no qual vários homens, com pés descalços, pisavam as uvas para extrair delas o suco usado para fazer vinho. Construiu também uma torre.

Mais tarde, tendo de viajar, o proprietário da vinha arrendou-a a vinhateiros e partiu para o estrangeiro. Chegada à época da colheita ele mandou seus servos aos vinhateiros para receber os seus frutos. E o que foi que eles fizeram? Mataram os servos que lhes foram encaminhados.

O dono da vinha resolveu então enviar seu filho pensando que ele poderia ser acolhido pelos vinhateiros, mas o mesmo que aconteceu com outros enviados, aconteceu ao filho do dono da vinha. Sendo este o herdeiro de tudo, eles o levaram para fora da cidade e o mataram.

Jesus pergunta aos seus ouvintes: Com certeza o dono da vinha virá e o que será que acontecerá Z com esses vinhateiros? E Jesus teve como resposta que, certamente, o dono da vinha acabaria com todos eles, e arrendaria a vinha para outros vinhateiros que entregarão os frutos no tempo devido. Então Jesus disse-lhes: “Nunca lestes nas Escrituras: ‘A pedra que os construtores rejeitaram torna a pedra angular, pelo senhor foi feito isso e é maravilha aos nossos olhos’? Porque isso vos afirmo que o Reino de Deus vos será tirado e confiado a um povo que produza seus frutos”.

O que Jesus quer nos ensinar com essa parábola? A crítica de Jesus foi que ninguém pode se fazer dono das terras, nem da nação, nem do Reino, a não ser Deus. (Mt 21,33-46).

Essa sua crítica nos ajuda a entender a parábola quando olhamos para o texto e buscamos alguns significados. A Bíblia de Jerusalém traz no rodapé uma nota nos dizendo que esta parábola pode ser relacionada com uma alegoria, porque na elaboração da história Jesus narra utilizando uma figura de linguagem que produz uma interpretação do significado, ou seja, sua expressão transmite um ou mais sentidos além do literal.

Assim a Bíblia de Jerusalém explica a alegoria utilizada por Jesus:

Na narrativa Jesus usa a palavra “proprietário” se referindo a Deus; a vinha significa o povo eleito, Israel.  Os servos são os profetas; o filho é Jesus, morto fora dos muros de Jerusalém.

Vamos entender essa parábola? – sabendo que a alegoria é um gênero literário da bíblia que indica a explicação ou expressão de alguma coisa por meio do nome ou imagem de outra coisa, podemos entender o que Jesus quer nos ensinar. Nessa parábola, quando os evangelhos nos trazem essas narrativas, ele apresenta um ensinamento de Jesus que em sua época criticavam aquelas pessoas, proprietárias de terras e vinhas, que exploravam os pobres e ainda, acumulavam colheitas. Jesus ensina que devemos partilhar, pois é Deus o proprietário de todas as coisas.

O que podemos aprender com Jesus hoje, olhando para nossa realidade? Quem seriam os vinhateiros de hoje e que crítica Jesus faria? A realidade de hoje permanece semelhante à do tempo de Jesus e assim sua crítica tem validade para nosso tempo: ninguém pode se fazer dono das terras, nem da nação, nem do Reino, a não ser Deus. Toda a criação feita por Deus nos foi dada para que tomemos conta dela, cuidemos bem, a protegemos e não façamos dela propriedade particular nossa.

Neuza Silveira de Souza

Coordenadora do Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de Belo Horizonte