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[Artigo] A interpretação da Bíblia para a fé cristã- Neuza Silveira, Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de BH

O Pai, que está nos céus, vem amorosamente ao encontro dos seus filhos e conversa com eles, e é tanta a força e a virtude que se encerra na Palavra de Deus, que é, na verdade, apoio e vigor para a Igreja, e, para seus filhos, firmeza da fé, alimento da alma, fonte pura e perene da vida espiritual (Dei Verbum, 21)

O modo que os homens e mulheres interpretam os textos bíblicos, na atualidade, tem consequências diretas sobre como são suas relações pessoais e comunitárias com Deus, estando também ligadas à missão da Igreja.

Para se chegar a uma interpretação inteiramente válida das palavras dos livros sagrados, inspiradas pelo Espírito Santo, é preciso que cada um seja guiado pelo mesmo Espírito, ou seja, pelo próprio Espírito que as inspirou. Para bem entendê-las e ou explicá-las, necessitamos da luz e da graça desse mesmo Espírito Santo, a quem precisamos pedir esse entendimento em humilde oração e conservá-lo mediante uma vida consagrada. Necessário se faz acolher docilmente essa luz, pedir o amor, o único que nos torna capaz de compreender a linguagem de Deus, que é amor (1Jo 4,8.16).

Chamados a viver a Palavra no amor de Deus

Deus nos criou e nos proporcionou sentido para a vida, através do seu amor. Ele está sempre a nos chamar, solicitando que sejamos colaboradores em sua obra criadora. Chama-nos para amar e assim poder revelar todo o seu amor. Respondendo a esse chamado de Deus com a nossa adesão pessoal ao Batismo, constituímo-nos comunidade viva, comunidade daqueles que creem, ou seja, a Igreja de Cristo, a quem os textos sagrados foram confiados para alimentar a fé e guiar a vida de caridade.

Quando começamos a ler a Bíblia, Palavra de Deus encarnada na vida, vamos percebendo como muita gente contribuiu para fazer acontecer essa história do povo de Deus. De forma ordenada e bem distribuída, a história vai percorrendo o caminho do seu povo, vai relatando como aconteceu o amor entre ele e Deus. Mais tarde, nos livros que chamamos Novo Testamento, encontramos os relatos de que modo o povo situado naquele tempo viveu e experimentou o amor de Deus por meio do Homem de Nazaré, Jesus, o Messias, o Ungido, o Cristo, o Filho de Deus.

Pode-se dizer que a Bíblia educa o homem para garantir que tudo venha à luz através da palavra, que nada de humano seja excluído, censurado. A Sagrada Escritura nos ensina a rezar até com palavras às vezes audazes. Segundo o Papa Francisco, a oração é diálogo com Deus; e, num certo sentido, todas as criaturas “dialogam” com Deus. No ser humano, a oração torna-se palavra, invocação, cântico, poesia… A Palavra divina fez-se carne, e na carne de cada homem a palavra volta a Deus na oração. A oração é aquela que abre a porta ao Espírito Santo, que nos inspira a ir em frente. Nesse sentido, tudo na Igreja nasce na oração, e tudo cresce graças à oração.

Por meio da oração é que homens e mulheres alimentam a chama da sua fé, como se fazia com o óleo das lâmpadas. Uma fé, como uma luz luminosa que possibilita perceber os sinais de Deus na história e assim ir em frente, caminhando na fé e na esperança. E, diante das novas culturas que vão surgindo, é preciso traduzir sempre e sem cessar o pensamento bíblico na linguagem contemporânea, para que ele seja sempre expresso de maneira adequada àqueles e àquelas que desejam ouvi-la. Uma tradução sempre fiel ao texto original, mostrando todo o brilho da Palavra de Deus, mesmo se ela é expressa por linguagem humana (Dei Verbum, 13).

Neuza Silveira de Souza

Coordenadora do Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de Belo Horizonte.