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A Liturgia e seu caráter iniciático (1) – artigo do Padre Márcio Pimentel, Secretariado Arquidiocesano de Liturgia de BH

A Liturgia como Mistério

A Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium (SC) afirma que, dentre as diversas atividades da Igreja, a Liturgia aparece como a mais importante.

Mas, por que a Liturgia ocupa um lugar excepcional na vida dos cristãos e cristãs? Certamente há outras ações eclesiais de grande importância, não seria uma supervalorização das celebrações?
Primeiramente, é importante salientar que, ao tratarmos da Liturgia da Igreja não estamos nos referindo apenas às celebrações, estritamente falando. O Catecismo da Igreja Católica se faz a mesma pergunta e a responde citando a SC 2: a Liturgia é o Mistério de Cristo anunciado e celebrado.

Dom Piero Marini diz que é a própria vida do Filho, que se torna vida da Igreja e vida do cristão e cristã. Esta conclusão é fruto de uma análise cuidadosa da SC que, em seus primeiros números, descreve a Liturgia não por conceitos mas como um acontecimento salvífico, como História da Salvação. Isso significa que a Liturgia não é um evento cerimonial acrescentado ao Mistério da Fé, mas é parte constitutiva deste mesmo acontecimento.

Além de ser obra de Cristo, a liturgia é também obra de sua Igreja. Ela realiza e manifesta a Igreja como sinal visível da comunhão entre Deus e os seres humanos por meio de Cristo. Empenha os fiéis na vida nova da comunidade. Implica participação ‘consciente, ativa e frutuosa’ de todos. (CIC 1071).

Quando a SC narra o que se dá na Liturgia celebrada (para somente depois nos oferecer um conceito dela) fala de um movimento de autorevelação que nasce no coração de Deus, que se dá a conhecer em seu Filho Jesus como Pai de todos; este ministério cumprido por Jesus é ofertado aos discípulos e discípulas para que o prolonguem no mundo. A Liturgia celebrada, então, faz parte deste Mistério de Cristo.

Quando celebramos, desde o Batismo até os demais sacramentos e sacramentais, bem como todas as outras formas de oração da Igreja, é o mesmo Mistério Pascal que recordamos acontecendo em nós. É um caminho pelo qual trilhamos para que tudo em nós respire Cristo e seu Evangelho, afinal somos homens e mulheres novos, segundo o Espírito. Por isso o Concílio afirmou a Liturgia como cumen et fons da vida cristã (SC 10). Por ela, vamos sendo formados segundo a vida do Filho, à medida que tomamos para nós os seus gestos e somos iluminados por sua Palavra. É assim que rezamos na missa:
Pela participação neste mistério, ó Pai todo-poderoso, santificai-nos pelo Espírito e concedei que nos tornemos semelhantes à imagem de vosso Filho […]. Fazei que todos os membros da igreja, à luz da fé, saibam reconhecer os sinais dos tempos e empenhem-se, de verdade, no serviço ao Evangelho. (OE VI-C)

Dai-nos olhos para ver as necessidades e os sofrimentos de nossos irmãos; inspirai-nos palavras e ações para confortar os desanimados e oprimidos; fazei que a exemplo de Cristo, e seguindo o seu mandamento, nos empenhemos lealmente no serviço a eles. (OE VI-D)

Eis porque a Liturgia é a mais importante das ações que a Igreja possui: porque é mediante os ritos e preces que vamos aperfeiçoando a graça recebida no Batismo. É pela celebração da Igreja que vamos progredindo no seguimento de Jesus, e sendo iniciados plenamente em seu Mistério Pascal, de modo que nos identifiquemos com Ele, até que seja Ele quem viva em nós. E assim, o Chifre da Salvação continue a proclamar a vitória.

 

 

 

 

 

 

 

 

Padre Márcio Pimentel, presbítero da Arquidiocese
de Belo Horizonte, membro do Secretariado
Arquidiocesano de Liturgia, doutorando em Liturgia
Pastoral pelo Instituto de Liturgia Pastoral da
Abadia de Santa Justina em Pádova-Itália