Artigo de dom walmor

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O apóstolo Paulo, escrevendo aos Coríntios, evoca a figura dos atletas que correm no estádio em busca de premiação. Lembra que todo atleta se submete a todo tipo de disciplinas para conquistar seu objetivo. Assim procedem aqueles que buscam uma coroa perecível, ou mesmo uma taça de caráter transitório, a exemplo do que ocorre na Copa do Mundo, que entrelaça corações e faz emergir emoções variadas. Paulo apóstolo evoca a condição do atleta para construir um entendimento sobre o percurso da fé, marcado por experiências que demandam esforços semelhantes àqueles assumidos pelos atletas, para que seja possível conquistar o prêmio. Nota-se, e sublinhe-se a gravidade de um fenômeno: muitos cristãos se envolvem mais com contextos sociais, políticos e culturais que com a própria fé. Assim, o empenho para viver a fé se enfraquece. As consequências são muito danosas, a exemplo da mistura indevida entre ideologia e religião, pela via de polarizações e disputas. Rifa-se o sentido místico e profético intrínseco à experiência da fé.

A pedagogia paulina tem o propósito de cultivar nas mentes e corações que a vivência autêntica da espiritualidade requer esforço. Sem esse esforço, aqueles que professam a fé cristã tornam-se sal insípido ou luz escondida. E o mundo dá sinais do quanto precisa “correr” pelos caminhos da fé. Os cristãos são desafiados a ser atletas da fé, assumindo também as disciplinas necessárias e indispensáveis para inundar-se da força do amor de Deus. Corações sedentos sinalizam a necessidade de se conseguir percorrer um caminho que os leve a uma fonte onde se possa saciar a sede do amor de Deus, sustento e motivação para que todos possam avançar em suas trajetórias.

Uma indispensável disciplina é buscar ouvir a Palavra de Deus, fecundando um humanismo integral, e, assim, superar todo tipo de partidarismo – fundamento de polarizações. Os cristãos, atletas em combate pelos valores e compromissos da fé em Jesus, estão, nestes tempos de tantas exigências e demandas, desafiados a fazer brilhar, com força do testemunho, a luminosidade dos ensinamentos de Deus. Devem irradiar esses ensinamentos com a própria vida. O grande esforço é a acolhida do chamado a uma conversão, admitida a importância de uma grande mudança na sua própria existência. O prêmio dos cristãos atletas é o amor revelado por Jesus, mestre e salvador. Amor que alavanca conquistas. Ora, sabe-se que a fé alicerçada no amor configura assertivos critérios para discernimentos e escolhas. Os corações precisam, pois, ser encharcados pelo amor, marcando a sociedade com o sabor do Evangelho.

Em evidência está a importância insubstituível, por um esforço deliberado e permanente, do testemunho cristão, em todas as circunstâncias da vida. Crer em Jesus não é vivência a ser mantida na privacidade. Envolve uma dimensão pública, o testemunho da própria fé, que exige reavivar perenemente o desejo de estar inserido no seguimento do mestre Jesus, o crucificado ressuscitado. Assim, a fé autêntica se alimenta do desejo de estar com Ele, Cristo, aquele que age para que seus discípulos tenham coração aberto, instigado a sempre procurar os ensinamentos do Mestre. E no coração dos discípulos sempre despertam princípios ético-morais com força mística e profética, capazes de conduzir o mundo na direção do amor de Deus.

No conjunto das disciplinas que desafiam os discípulos de Cristo, indispensável é investir no conhecimento da doutrina da fé, que introduz o ser humano na totalidade do mistério do amor de Deus. Importa, pois, uma busca sincera pela compreensão e vivência do amor que transforma e alicerça a fraternidade universal. A fé pode levar a uma profunda mudança pessoal e comunitária. Ela tem propriedades para capacitar a humanidade à vivência de uma profunda comunhão, despertando nos corações a coragem generosa que alicerça atitudes altruístas. A fé também pode se desdobrar em uma sabedoria capaz de configurar novo estilo de vida. Os cristãos, desafiados a ser atletas da fé, são convocados a semear o amor maior, traduzido em gestos concretos de fraternidade, dedicados especialmente aos pobres. Os “atletas da fé” têm o dever de se tornar operários de um novo tempo, combatendo o bom combate pela força do testemunho.  A fé, ouro da vida, seja buscada a partir da grandeza de experiências e de testemunhos genuínos, alicerçados na conduta cristã, aquela que partilha os valores do Evangelho de Jesus – força perene de transformações.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)