Artigo de dom walmor

Rosto do pobre

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A Igreja Católica, no mundo inteiro, está convocada a celebrar o 10º Dia Mundial do Pobre, 15 de novembro, iniciativa oportuna e educativa do saudoso Papa Francisco. A celebração contribui para consolidar o que é intrínseco à fé católica: o cuidado, o compromisso espiritual, social e político com os pobres. Trata-se de uma celebração que ilumina a Igreja para viver a fé sempre, e cada vez mais, com autenticidade, exercendo, assim, a sua tarefa missionária de dissipar as sombras do mundo, expressas no inadequado tratamento dedicado aos pobres. Na realidade brasileira, também os pobres são desrespeitados em sua dignidade, sendo necessário e urgente superar cenários de miséria e exclusão. Tragicamente real é o preconceito e as ameaças aos pobres, agressões de quem poderia ajudá-los, mas age a partir de julgamentos inadequados, muitas vezes fundamentados nas opções político-partidárias. Importa sempre lembrar que a erradicação da fome e da pobreza é uma tarefa de fé e compromisso cidadão.

A Doutrina Social da Igreja reza que os bens da terra foram criados por Deus para que sejam sabiamente utilizados por todos, divididos com equidade, segundo a justiça e a caridade. A confluência entre justiça e caridade é forte, obrigando cidadãos e cristãos a se dedicarem à construção de uma sociedade mais igualitária, respeitosa diante da dignidade inviolável de toda pessoa. Esse compromisso, que atesta a autenticidade da fé cristã e de uma qualificada cidadania, precisa ser exercido, particularmente, pelos que foram eleitos nas urnas. O princípio da destinação universal dos bens deve orientar aqueles que exercem o poder, conforme ensina a Igreja Católica, oferecendo uma fundamental orientação moral e cultural para desatar o complexo e dramático nó da pobreza. O ponto de partida para alcançar patamares de moralidade, dinâmicas de solidariedade e efetivas transformações sociais é a prática cotidiana de contemplar o rosto do pobre.

Desconsiderar os pobres, não os enxergar, é postura arriscada e perversa, que leva à constituição de muralhas para isolar os privilegiados, aqueles que se preocupam somente com o próprio bem-estar, agindo de modo indiferente em relação aos sofrimentos, penúrias e dificuldades vividas por muitas pessoas. O coração humano contaminado pela indiferença não se incomoda com o peso carregado pelo pobre, conforme bem mostra o Evangelho, na parábola do rico e do pobre Lázaro, cheio de feridas, alimentando-se de migalhas caídas da mesa de quem diariamente festejava e oferecia banquetes finos. Oportuna é a lembrança do Papa Leão XIV, na sua mensagem deste ano para o Dia Mundial do Pobre, quando sublinha que hoje o clamor dos pobres por justiça é abafado por múltiplas técnicas, cada vez mais dissimuladas, a ponto de silenciar todos os esforços daqueles que enfrentam a pobreza. O ambiente digital, continua o Papa, radicaliza o preconceito contra os pobres e aumenta a cortina de indiferença que envolve as suas causas. Em um contexto de indiferenças, o Santo Padre retoma o que ensina os salmos:  ao pobre resta clamar a Deus, fiel e rico em misericórdia, sendo o refúgio seguro.

Distanciar-se dos pobres é uma insensatez, um obstáculo ao enfrentamento da miséria, da fome e da pobreza. Trata-se de um posicionamento social e político que expressa também insensibilidade espiritual. A mensagem do Papa adverte para a situação daqueles que levam a vida como se nada houvesse acima deles, acentuando uma injustiça social com raízes em uma corrupção arrogante, deplorável e discriminatória. Contemplar o rosto do pobre é oportunidade para viver uma espiritualidade capaz de resgatar o sentido de transcendência que, quando perdido, faz o ser humano padecer com um peso sobre os próprios ombros. A mensagem papal ainda sublinha: a ausência de Deus faz com que as pessoas já não se coloquem umas ao lado das outras, em uma postura que expressa o respeito mútuo. Ao invés disso, as pessoas passam a se enxergar umas acima das outras, em uma lógica do domínio e da opressão, que marginaliza e humilha.

A certeza de que Deus é o refúgio do pobre deve brilhar como um farol para iluminar a contemplação do rosto daqueles que padecem com a pobreza. Contemplar o rosto dos pobres é porta de entrada para um ciclo de vida capaz de promover a edificação de uma sociedade igualitária e fraterna. Trata-se de oportunidade imperdível para não se ter o mesmo destino final do rico indiferente ao pobre Lázaro, com uma condenação que arde, intransponível, distante do “seio de Abraão” onde o pobre está. Cultivar sensibilidade em relação aos que sofrem possibilita encontrar uma sabedoria que qualifica a cidadania, tornando-a capaz de ajudar a construir uma sociedade solidária em que cada vez mais pessoas assumam nobres compromissos sociopolíticos, enquanto se vive uma espiritualidade autêntica, transformadora de mentes e corações.

Em Cristo, todos são chamados a se tornar pobres e, ao mesmo tempo, a ser refúgios para os pobres. Afirma o Papa Leão XIV que a comunidade cristã não pode permanecer insensível perante tantos que hoje se encontram à porta e permanecem invisíveis para aqueles que estão fechados entre as próprias paredes. Vale levar a sério a reflexão feita por Santo Agostinho diante da parábola do homem rico e do pobre Lázaro, retomada pelo Papa: “Calou o nome do rico e disse o nome do pobre. O nome do rico andava de boca em boca, mas Deus calou-o; o nome do pobre passava em silêncio, mas Deus revelou-no-lo. (…) Tu, que escolherias? Ser pobre como Lázaro ou ser rico como o outro? Não te deixes enganar! Escuta qual foi o fim e repara na má escolha”. Seja fecunda e interpelante a celebração do 10º Dia Mundial do Pobre!

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte 



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