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Voltar-se para o Senhor, rasgar o coração (Jl 2, 12-13): Quaresma. Este tempo preparatório na Igreja, para a Páscoa, fruto de um longo processo histórico, evolutivo, é rico de significados e oportunidades para os cristãos. Com o início na Quarta-feira de Cinzas, a Quaresma, cuja palavra vem do latim quadragésima dies (o dia quadragésimo antes da Páscoa), é um forte convite à Igreja para estar diante de Deus, em Jesus Cristo, na inspiração do Espírito Santo como condutor interior de cada pessoa.

É mais que um tempo de penitência. É tempo esponsal. Pela Palavra de Deus celebrada na liturgia e pela prática dos exercícios quaresmais (Jejum, esmola e oração), o chamado para estar com Deus nos leva pelo caminho da renovação pessoal, para como Igreja sermos Esposa do Senhor. É um tempo de cada um e de toda a Igreja. Tempo no qual unir-se ao Senhor é meta principal, união forjada no coração sedento de Deus e de sua oferta de vida.

Nesse sentido, o significado maior da Quaresma está na própria Páscoa, para qual se vive essa etapa litúrgica, como ocasião, desde os primórdios da Igreja, para receber e renovar os sacramentos e nelas estar na companhia de Deus. Foi por isso que na antiga prática sacramental da Igreja, na Quaresma, os catecúmenos eram preparados para receber os sacramentos da iniciação cristã, por ser a Páscoa a celebração do mistério maior da fé.
 

Quaresma é uma motivação para se aprofundar o sentido do viver cristão, de se pôr em atitude de escuta mais profunda aos apelos do Senhor

Na perspectiva catequética, o período é bastante fecundo. Com os catequizandos pode-se propor verdadeiro “passeio existencial”. Não obstante o despojamento litúrgico que acompanha a Quaresma, a riqueza dos símbolos e a agudeza de sua penetração são evidentes. Veja o significado das cinzas. Elas podem ser usadas para chamar atenção à fragilidade humana, à transitoriedade da vida e ao arrependimento. A água ganha força como sinal de regeneração, purificação.

A singeleza e leveza dos cantos podem ser aproveitadas para maior interiorização. Nisso, são muito válidos os refrãos meditativos penitenciais. Os exercícios quaresmais podem tornar-se fontes para reflexão sobre o sentido cristão da oração, do jejum e da esmola. Além disso, o estímulo à participação na piedade popular (procissões, vias-sacras, sermão do descendimento, sermão das sete palavras) pode motivar conversas posteriores sobre o significado destas práticas e o seu valor e potencial evangelizador. Claro, tudo isso feito de acordo com cada destinatário da catequese.

Importante ressaltar, que no meio da correria de todos os dias, de todos os anos, a Quaresma é uma motivação para se aprofundar o sentido do viver cristão, de se pôr em atitude de escuta mais profunda aos apelos do Senhor. Sem essa consciência, a Quaresma pode se tornar infrutífera, um conjunto de ritos vazios, tristes, sem ligação com mistério da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus. Lembra-nos a quaresma que Deus quer conversar ao nosso ouvido, conduzir-nos pela mão, nos oferecer o banquete dos reconciliados. Mas Ele precisa da nossa resposta livre. Necessita do nosso amém ao Seu amor oferecido.

 

Pe. Magno Marciete do Nascimento Oliveira
membro da Comissão Arquidiocesana de Catequese