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Violência, crack e abandono

Toda criança tem o direito de brincar, ir à escola, estar protegida e crescer forte e saudável

A violência no Brasil, em várias pesquisas, se mostra como uma das principais preocupações do cidadão brasileiro. O artigo 7º, capítulo I, do Estatuto da Criança e do Adolescente diz: “A criança e o adolescente têm direito à proteção, à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência.” Sabemos ainda que toda criança tem o direito de brincar, ir à escola, estar protegida e crescer forte e saudável. Mas esses direitos são violados diariamente para milhões de crianças brasileiras.

 Estudo publicado no Canadian Journal of Psychiatry  pela pesquisadora Tracie  Afifi e colaboradores,  da Universidade de Manitoba, no Canadá,  avaliou a associação entre uma história de cinco tipos de violência e maus tratos na infância (abuso físico, abuso sexual, abuso emocional, negligência física e negligência emocional) e o uso abusivo de substâncias, incluindo o álcool, sedativos, tranquilizantes, opióides, anfetaminas, maconha, cocaína, alucinógenos, heroína e nicotina durante a vida adulta. Todos os cinco tipos de maus tratos na infância estavam associados à maior chance de todos consumirem drogas. O estudo conclui que a prevenção de violência e de maus tratos na infância pode ajudar a reduzir o uso de drogas na população em geral.
 

Segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação, em 2013, 80% dos encaminhamentos de crianças e adolescentes para instituições de acolhimento estavam relacionados ao uso de drogas pelos pais. A maioria é composta por crianças com até 4 anos — fase em que desenvolvem a capacidade cognitiva, que é conhecer, entender e se relacionar com o mundo. Além do abandono, essas crianças são vítimas de outros tipos de violência.
 
As causas associadas ao uso de drogas são diversas. As mais frequentes se associam a emoções e sentimentos com intenso sofrimento psíquico, depressão, culpa, ansiedade exagerada e baixa de autoestima, seguidos pelo desconforto físico, uma dor sem  definir a causa, e ensejando a busca pela “alegria e bem-estar”.

As ações preventivas são complexas e incluem o desenvolvimento de atitudes, valores, aptidões, comportamento sociabilizante

O crack hoje bate em todas as portas. Dentre as drogas, o  crack se destaca como elemento avassalador, pois ela é barata, de fácil acesso, tem alto poder de destruição  e  dessocializa a pessoa em velocidade maior que a cocaína e outras substâncias tóxicas. O destino dos órfãos do crack preocupa. Não são raros os casos em que as crianças são deixadas com vizinhos ou conhecidos. Os parentes dos usuários de crack relutam em ficar com seus filhos, pois temem o comportamento imprevisível e agressivo dos pais. O uso de crack pela mãe engrossa a lista dos preconceitos que permeiam a adoção. Há receio de que os bebês abandonados venham a sofrer transtornos mentais no futuro, associados à droga consumida durante a gestação.

 

As ações preventivas são complexas e incluem o desenvolvimento de atitudes, valores, aptidões, comportamento sociabilizante, estímulo para aprimoramento das relações interpessoais e desempenho acadêmico e vocacional. Outra forma de prevenir e combater a violência contra os jovens é dar visibilidade e disseminar informações sobre o problema, que permitam orientar os esforços das três esferas de governo e da sociedade civil.

 

Raquel Pitchon
Presidente da Sociedade Mineira de Pediatria
Estado de Minas