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Vaidade das vaidades

 

Século XXI: sociedade da imagem, do espetáculo (Guy Debord). As palavras sobram ou faltam. Os ouvidos parecem atrofiar-se, enquanto a vista aguça suas faculdades. O que não entra pelo olhar não existe, ou não tem importância. Na medida em que se atrofia o órgão da audição, porém, atrofia-se de igual modo o ouvido secreto do coração e da alma. Diante do fantástico impacto da imagem, a emoção e a sensibilidade acabam por tornar-se luxos supérfluos, descartáveis.

Ver, tocar, apalpar, encher de fotos o álbum, de papel e eletrônico. Fotos de preferência com a imagem de si mesmo. O império da imagem gera a hipertrofia do narcisismo. Ver e ver-se, na magia da tela – eis a onda, a moda, a sensação das sensações. O “eu” sorridente e em primeiro plano – rodeado de paisagens, monumentos históricos e cenas de lazer – deixa à margem o “outro”. Pior ainda, perde a capacidade de surpreender-se com a alteridade e de ser por ela interpelado.

Inchado e hipertrofiado, o “eu” ocupa todo espaço. Reduz tudo e todos a si mesmo ou ao seu ponto de vista. Busca a posse a qualquer custo. O desejo, possessivo, tirano e ilimitado, apropria-se do que encontra, acumulando coisas e pessoas como objetos de estimação. Perde o essencial que “é invisível aos olhos” (Saint-Exupéry).

Acariciar o “ego”, cultivar o personalismo à máxima potência, não importa à custa de quem. Entra em cena o individualismo exacerbado, o hedonismo, prazer pelo prazer, a “vaidade das vaidades”. Sacrifica-se qualquer compromisso e paga-se qualquer preço para fazer de si mesmo o foco de todas as atenções. Chegamos com isso ao que se convencionou chamar de sociedade atomizada. Da mesma forma que, no átomo, as partículas giram magneticamente ao redor do núcleo, no ser humano, os interesses, desejos, esforços e paixões giram em torno do próprio umbigo. Todas as órbitas convergem sobre o “eu” como centro do universo.

A fixação sobre si mesmo gera a miopia e a cegueira com relação ao “outro”, seja este de caráter sexual e afetivo, étnico ou cultural, comunitário ou sociopolítico, animal ou vegetal, orgânico ou inorgânico. O “eu” se torna a tal ponto engrandecido que preenche, de forma total e absoluta, a janela do horizonte, ou a telinha televisiva, eletrônica.

Semelhante engrandecimento e absolutização de si mesmo e da visão narcisista impede o desenvolvimento da escuta. Impossível ouvir não só as palavras, mas especialmente o silêncio que reflete a alma do outro. Mais impossível ainda sentir não as palavras, mas o mistério silencioso e oculto do totalmente Outro.

Não há tempo, nem espaço e menos ainda empenho para a busca da alteridade: natural, cotidiana, humana, histórica, transcendente. O que significa, retroativamente, em última instância, mutilar o próprio “eu”. Pois somente no confronto e na relação “eu-tu” (Martin Beber) a pessoa humana nasce, cresce, desenvolve-se e realiza todas as suas potencialidades. Descentrar-se para encontrar a si mesmo!

Sem esse confronto dialógico, seguiremos avançado cegamente, fragmentariamente, esquizofrenicamente, em busca de uma felicidade que sempre nos escapa por entre os dedos. Felicidade é encontro e reencontro, mesa, partilha, comunhão – Eucaristia.

 

Pe. Alfredo J. Gonçalves
Assessor das Pastorais Sociais
Adital