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Sutil intuição ““ beleza para o desespero

A beleza salvará o mundo!

Todos conhecemos este dócil pensamento do russo Dostoievski no seu livro O Idiota.

O homem precisa da beleza para não cair no desespero.

O Papa Paulo VI, por sua vez, nos deixou esta não menos dócil e sutil intuição. Intuição de quem tem profecia no olhar, delicadeza no sentir, sensibilidade no comunicar – o Papa Paulo VI era exatamente assim, extremamente fino na percepção e no falar!
 
Um dos nossos melhores poetas disse que ela é fundamental (Vinicius de Moraes).
 
Nestes três pensamentos, delicados e profundos, a senhora beleza, cheia de graça e encanto, ganhou vivo reconhecimento e merecida reverência!
 
Quem é esta dama tão admirada, desejada, procurada, almejada, querida, enaltecida, universal, que salta aos olhos? Ela é tão presente, que por vezes é pouco vislumbrada. Tão necessária, que por vezes é confundida, ficando contraditória, quase um desencanto!
 
Mas, de fato, ela salva, gera quietude e admiração – sim, é fundamental! E como o nosso tempo anda necessitado da beleza fundamental, que evita desespero e salva!
Daquela beleza que não se abriga na estética multicolorida, que tão somente desperta prazer passageiro, incentiva a vulgaridade, passatempo estéril, desperdício do olhar.
 

Jesus vislumbrou belezas que gratuitamente se lhes apresentavam ao olhar: os lírios do campo, a noite e sua
capacidade de renovar, o mar, as cidades …, sobretudo, a beleza das pessoas

É um pecado quase grave associar a beleza ao estético, colorido, vivo, agradável e que caiu no gosto da maioria! Estas características podem, sem dúvida, proporcionar boa curiosidade, interesse pela plasticidade, e até despertar criatividade.
 
Mas, a genuína beleza não depende de cores, vivacidade, número, aprovação das massas! Ela simplesmente, soberana e livre, se apresenta com singular gratuidade ao olhar e à admiração – pede reverência, sensibilidade, olhar de passarinho, quase um temor filial!
 
Anda em falta no nosso tempo uma virtude essencial: a de descobrir belezas escondidas no mistério, no sagrado, na Criação, no universo, na discrição, na sinceridade, na gentileza, no sorriso, na bondade, na delicadeza, no acolhimento, na ternura, na emoção, num aperto de mão, num simples olhar de profecia, na arte que suscita e pede gratuita admiração.
 
Interessante, após a obra da Criação, Deus viu que era bom tudo que havia criado, ou seja, tudo belo, harmonioso, pleno, cheio de beleza, repleto de esplendor (Gn 1,4.10.18.21.25).

Jesus vislumbrou estas e tantas outras belezas, belezas que gratuitamente se lhes apresentavam ao olhar: os lírios do campo, a noite e sua capacidade de renovar, o mar, as cidades, as aldeias, os montes, as casas, sobretudo a beleza das pessoas.
 

São João, no final do seu Evangelho, viu Jesus, mesmo crucificado e no mais profundo sofrimento, num corpo cheio de beleza e com chagas gloriosas

São João, no final do seu Evangelho, viu Jesus, mesmo crucificado e no mais profundo sofrimento, num corpo cheio de beleza e com chagas gloriosas – que olhar do apóstolo!

O bom ladrão também o viu assim. Além de um corpo glorioso e belo, ele intuiu o corpo de um Rei capaz de levá-lo ao paraíso: Senhor, lembra-te de mim, quando vieres com teu reino… Hoje estarás comigo no Paraíso (Lc 23,39-43).

Que belo o último furto do bom ladrão: viu a especial beleza de Cristo, beleza escondida em seu corpo, ainda que crucificado! Foi por este olhar que ele ganhou o paraíso!

 
Fiquemos com Santo Agostinho. Este, ao descobrir a Beleza com B maiúsculo, recobrou brilho no olhar, viu sua vida resplandecer:
Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei!
Estavas dentro de mim e eu estava fora, e aí te procurava…
Estavas comigo e eu não estava contigo…
Mas Tu me chamaste, clamaste e rompeste a minha surdez.
Brilhaste, resplandeceste e curaste a minha cegueira.
 
Eis a Beleza fundamental, que evita desespero e, de fato, salva!
Possa a graça do Senhor ajudar-nos a descobri-la em nossa jornada.
Com esta Beleza, certamente caminharemos com mais esperança, alegria e paz!

 

Dom Abade Felipe da Silva
Mosteiro de São Bento, Rio de Janeiro (RJ)