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Cada dia fazemos experiência de viver num mundo que mais nos desafia do que ajuda, que questiona nossas convicções e interpela nosso modo de vida. Às vezes nos surpreendemos sonhando com tempos passados, quando então nossa fé era compartilhada pela grande maioria da sociedade, quando nossas palavras e ações eram entendidas, confirmadas e aprovadas pelos outros. Neste tempo ser cristão e ser brasileiro como que se equivaliam. O que não mais pode ser afirmado hoje. Pois esbarramos diariamente nessas pessoas que pensam diferente de nós, que são adeptos de outras Igrejas ou de outras religiões, que se orientam na vida com outras bússolas, sendo que algumas chegam mesmo a prescindir de Deus em sua labuta diária. De fato, a sociedade moderna, ou pós-moderna como querem alguns, é pluralista, altamente diversificada e bastante fragmentada.

Constatamos também que ninguém vive sem ter uma visão da realidade que norteie seu comportamento e fundamente suas ações. Infelizmente, em nossos dias o que constitui valor para nossos contemporâneos provém em grande parte da mídia, avassaladora e irresistível, que os seduz a consumir bens materiais ou a assumir filosofias de vida que prometem uma felicidade imediata e fácil. No fundo, estão sendo manipulados pela mídia a serviço da lógica econômica que prioriza a produtividade e o consumo contínuo de bens. E nós, repetimos, esbarramos diariamente com este ambiente materialista e individualista, que não deixa de nos tentar e aliciar, questionando nossa fé, nosso comportamento e nossos valores.
 

Somos cristãos não apenas para nos
salvar, mas para levar
a outros o sentido profundo, a paz, a felicidade, a alegria
que nos proporciona nossa fé em
Jesus Cristo

Sentimos que não nos encaixamos nesta sociedade, embora sejamos atingidos por seus apelos por estarmos nela inseridos. E a razão é simples. Somos cristãos. Esta afirmação não significa apenas que fomos batizados ou que pertencemos à Igreja Católica. Mais fundamentalmente ela atesta que somos seguidores de Jesus Cristo, que cremos que sua pessoa nos oferece o sentido último de toda a realidade, a verdade sobre nós mesmos e a referência decisiva para o nosso comportamento. Mesmo que, superficialmente, nosso dia a dia não se distinga muito daqueles de nossos contemporâneos, no fundo o nosso cotidiano é orientado pela nossa fé em Jesus Cristo, Deus presente na história humana e em nossa vida.

Porque ser cristão implica que acolhemos e assumimos a compreensão da realidade que teve Jesus Cristo, que nos ensinou por sua vida e suas palavras como devemos olhar para nossos semelhantes, para os bens materiais, para os imprevistos da vida, para nossas preocupações, para nossos momentos de sofrimento ou de alegria. De fato, a primeira riqueza que nos proporciona a fé cristã é compreendermos toda a realidade como a entendeu Jesus Cristo. Na aventura que é a vida humana não andamos como cegos, não reproduzimos como robôs o que nos manda a sociedade, não sucumbimos à instabilidade das modas e dos imperativos do dia. Mesmo que isto nos custe e nos dê, às vezes, a impressão de que somos estranhos no ninho.

 

Temos que viver conforme nossas convicções, mas aceitando o diferente. Esta verdade é fundamental para a convivência humana numa sociedade pluralista como a nossa

Mas Jesus Cristo nos ensina também como devemos nos comportar nesta vida. Como devemos lutar diariamente para sairmos de nós mesmos, para estarmos atentos e solícitos para com nossos semelhantes, independente do que possamos deles receber. Um programa de vida do qual não pode estar ausente a gratuidade, o perdão, o espírito de serviço. Naturalmente incompreendido pela sociedade atual em sua busca de uma felicidade imediata que nunca satisfaz por ser efêmera e passageira, que mais produz tensões e decepções por buscar no meramente material ou humano o que eles não podem dar, que provoca o consumismo frenético como substitutivo por não poder oferecer a paz profunda e permanente ansiada por todo coração humano.

Portanto, tenhamos uma consciência bem clara de que somos diferentes. Não devemos nos sentir inferiores, rebaixados ou marginalizados diante daqueles que acolheram outras visões da realidade ou que vivem de modo diferente. Também não podemos olhá-los por cima dos ombros com ares de superioridade ou julgá-los negativamente com critérios moralistas. Só Deus tem acesso aos corações humanos. Temos que viver conforme nossas convicções, mas aceitando o diferente. Esta verdade é fundamental para a convivência humana numa sociedade pluralista como a nossa.

Além disso, não podemos esquecer que somos cristãos não apenas para nos salvar, mas para levar a outros o sentido profundo, a paz, a felicidade, a alegria que nos proporciona nossa fé em Jesus Cristo. Temos como Igreja a missão de promovermos ao longo da história a realização do Reino de Deus iniciada em Jesus Cristo. Devido à inflação de palavras e discursos própria de nossa época, esta missão se realiza principalmente através de nosso testemunho de vida. As palavras movem, os exemplos arrastam, já diziam os antigos. É exatamente enquanto somos diferentes que podemos oferecer uma nova perspectiva de vida para nossos contemporâneos.

 

Pe. Mário França de Miranda, SJ
professor na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro