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Sobre a utilidade da Liturgia

Em nossos três artigos anteriores esboçamos uma breve aproximação sobre a Liturgia tendo como motivação a palavra do teólogo Romano Guardani que vê as celebrações da Igreja desprovidas de utilidade prática, ao menos numa perspectiva exclusivista. Neste último escrito sobre o tema, gostaríamos de abordar a “palavra definitiva” [1], utilizada por Guardani .

Partindo das Sagradas Escrituras, o teólogo alemão chancela sua teologia do culto tendo como referência ao menos duas passagens bíblicas: uma, do livro de Ezequiel, e outra, do livro dos Provérbios. Destaca desse último os versículos 30 e 31 do capítulo oitavo: “Eu (a Sabedoria) estava junto com ele como arquiteto, eu era seu encanto todos os dias, todo o tempo brincava em sua presença: brincava na superfície da terra, e me alegrava com os homens.” Guardini lê este extrato bíblico perguntando que finalidade utilitária pode haver em um jogo, uma brincadeira, uma vez que “em seus jogos não se propõe jamais a uma criança conseguir nenhum fim, nenhuma coisa prática. Não se busca outra coisa, senão, desenvolver sua atividade infantil, transbordar sua vida livremente em forma de movimentos, de palavras, de ações, que não têm nenhum fim positivo, mas que por isso, justamente, tem sua razão suficiente. Estão livres de toda finalidade, mas impregnados de profundo sentido, e este não é outro que o de expandir sua vida incipiente (…).”  Rubem Alves, mais próximo de nós, tem considerações muito semelhantes, a partir de onde elabora sua “filosofia da educação”: “Armar quebra-cabeça, empinar pipa, rodar pião, jogar xadrez, bilboquê, jogar sinuca, dançar, ver caleidoscópio, não levam a nada. Não existem para levar a coisa alguma. Quem está brincando já chegou.”

Aplicando esta chave de leitura à Liturgia podemos contemplá-la como um acontecimento  lúdico, no qual importa menos ser uma atividade com finalidade prática ou fim útil e mais um momento intenso no qual podemos “descansar” à sombra do Altíssimo. Não há que se buscar desculpas extrínsecas à Liturgia para contá-la como evento necessário ou de máxima importância para a fé. Aliás, quando procuramos motivações alheias ao seu próprio ser, à sua própria constituição ou natureza, facilmente a manipulamos. Ao atribuirmos uma finalidade prática à celebração, a despimos de sua identidade e a transformamos em instrumento de satisfação de nossas vontades. Ela deixa de ser o lugar e ocasião para transbordarmos na presença e da presença do Eterno, e se verte em um balcão sobre o qual nos debruçamos para cobrar de Deus os seus favores, oferecendo-lhe em troca o nosso reconhecimento, nossos elogios em forma de louvores. Estabelece-se, portanto, um produto e uma moeda de troca. Passamos de convivas a clientes. Ao invés de espaço e tempo aptos à gratuidade, cede-se à lógica do mercado que já invadiu e perverteu todos os outros setores da vida humana.  A Liturgia passa a funcionar como tempo e lugar de “consumo” das coisas divinas, que na verdade não têm nada de celestes, pois são um arremedo de Deus, mera projeção de nossos apetites. Basta verificar as propagandas que muitas igrejas fazem de suas celebrações, como se oferecessem um produto a uma clientela e concluir a verdade desta abordagem. Missa para alcançar isso, bênção para atrair aquilo, novena para resolver aquilo outro… Seguindo por este caminho dificilmente iremos desfrutar do verdadeiro sentido da Liturgia que é a expansão da nossa vida enquanto penetra o véu do Mistério, alcançando em Deus seu sentido sem reduzi-lo e reduzi-la (a vida) à esfera da utilidade.   

Poderíamos concluir que tudo se resume a arte de dar e receber. Quando vale mais receber do que dar, a utilidade é forçada para dentro das relações de modo destrutivo. Isso vale também (e sobretudo) para a Liturgia. Quanto mais celebrarmos com a desculpa de “receber” algo mais nos distanciaremos da dádiva gratuita de Deus. Muito mais nos fartaremos e saciaremos de nós mesmos e quanto mais vazios permaneceremos! O segredo está em “dar”, em “oferecer”. Quando brincamos, não estamos preocupados em receber nada, mas tão simplesmente em oferecer; na verdade em darmo-nos como presença. O que é a amizade senão um escolher-se e um dar-se mutuamente. Quando numa relação uma das partes começa a preocupar-se demasiadamente com aquilo que “recebe” ou com o que poderá lucrar com seu companheiro, a amizade certamente começará a ruir pois se perderá nos meandros da utilidade; já não terá mais sentido. Ora, a Liturgia é assim. Curtir a amizade com o Criador mediante o convívio com seu Filho amado.  Se neste convívio nosso olhar repousar exacerbadamente naquilo que desejamos receber, já não teremos um amigo junto de Deus; teremos diante de nós um prestador de serviços e ocuparemos o lugar de clientes. O resultado, no final, será bem simples: religião útil, fé sem sentido.

Gostaríamos de terminar esta série de artigos com as palavras do Rabino Elyahu E. Dessler:  duas forças, dar e receber, são a fonte de todos os atos humanos.  (…) O estilo de vida dos santos consiste em dar o máximo que podem e receber o mínimo que necessitam.[2] Essa pode ser uma forma muito pródiga de viver a Liturgia, recuperando a dinâmica do sentido e subordinando-lhe a perspectiva da utilidade. Quando celebramos o que “lucramos” é secundário. O que “recebemos” é consequencial. Não seja nossa primeira preocupação. Como numa brincadeira, quando fizemos Liturgia, ocupemo-nos em dar: abrindo as mãos, oferecendo nosso ritmo, empenhando nosso olhar, cedendo nossa voz, doando nosso ouvido, comunicando-nos por nosso toque. Negociemos menos e procuremos fruir mais.

Referências bibliográficas

[1]Cf. GUARDINI, Romano. El Espíritu de la Liturgia. Buenos Aires: Agape Libros, 2005, p. 89.
[2] Cf. DESSLER, Eliyahu E. Em busca da verdade. São Paulo: Sefer editora e livraria, Or Israel College, 2003, p. 46-48.