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Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade: Memória e Patrimônio

Rayane Soares Rosário[1]

Maristela Costa Martiniano[2]

Erguido no alto da montanha, a 1746 metros de altitude, o Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade é o lugar ideal para a reflexão, a oração e o encontro com Deus. Localizado, nos municípios de Caeté e Sabará, integra a Forania de Nossa Senhora de Bom Sucesso, parte da Região Episcopal Nossa Senhora da Piedade da Arquidiocese de Belo Horizonte.

A chegada até o topo se faz através de um percurso de aproximadamente 12 km e ao longo deste caminho encontra-se a representação da Via Sacra em azuleijaria. O local em si é um complexo cultural e patrimonial, tendo as edificações do Santuário em um platô no alto da Serra da Piedade, compreendendo a Igreja de Nossa Senhora da Piedade, com o convento acoplado à fachada dos fundos, a Casa dos Romeiros, um restaurante e a Igreja-Auditório. Além disso, encontra-se o Observatório Astronômico Frei Rosário, da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. (OKAWARA et al., 2009).

A partir das ações sociais instituídas entre os indivíduos, espaços e instituições, o patrimônio cultural se edifica, assumindo valores e significados através das práticas culturais e sociais. Isto é, de acordo com as práticas sociais, que são iniciados os processos de valorização e legitimação cultural dos lugares e monumentos, os quais fomentam a relação social e coletiva do patrimônio.

Brusadin ressalta que “a dinâmica cultural do patrimônio e suas interfaces com o imaginário social se relacionam aos processos de memória e identidade por meio dos seus símbolos e tradições” (2011, p.9). E, de acordo com os novos conceitos sobre o patrimônio cultural, este se apresenta como um mecanismo humano, dotado de fortes representações simbólicas, que nos permitem compreender o processo histórico e identitário de uma sociedade.

O patrimônio se constitui como um elemento que dispersa relações de poder, força e de desejo, assumindo a postura de um vínculo identitário essencial, que norteia os embates e as alianças entre as memórias individuais e coletivas. (Foucault, 2001). Nesta perspectiva, a ligação entre memória e patrimônio cultural é marcada a fim de designar lugares onde a memória encarnou e permaneceu, seja pela vontade dos homens, seja pelo trabalho dos séculos, como importantes símbolos nacionais.  (BRUSADIN, 2011, p. 52).

Seguindo os conceitos citados, destaca-se o Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade, patrimônio cultural e ambiental, localizado no município de Caeté-MG. Sua caracterização patrimonial remonta ao século XVII, sendo conhecida como a “lendária montanha resplandecente de ouro e prata”, consagrando a localidade como uma das principais referências para a busca de metais e pedras preciosas (REIS e ARAÚJO, 2022).

Além do âmbito histórico, consagra-se no âmbito religioso, destacando-se como centro de peregrinações em devoção a Nossa Senhora da Piedade. Nesse sentido, iniciam-se as obras de construção de uma Ermida em homenagem a Nossa Senhora da Piedade, em 1767, passando por várias etapas de construção e ampliação até o ano de 1797. Já em dezembro de 1991, funda-se a Paróquia do Santuário de Nossa Senhora da Piedade, por meio do Decreto Episcopal n° 398, quando é determinado que a parte mais alta da Serra, onde se localiza a Ermida, passaria a ser solo sagrado. Posteriormente, em 2017, o título de Basílica é concedido pelo Papa Francisco. Na comemoração dos 250 anos do Santuário, é realizada sua cerimônia de consagração, celebrada pelo arcebispo metropolitano dom Walmor Oliveira de Azevedo.

Em aspectos ambientais, enfatiza-se sua integração à Serra da Piedade, um monumento geológico e geomorfológico dos mais importantes do Quadrilátero Ferrífero, apresentando, também, rica biodiversidade com vegetação de diferentes tipos como cerrado, mata atlântica e o endêmico campo rupestre ferruginoso. Importante ressaltar que no ano de 2021, o Conselho de Política Ambiental do Estado de Minas Gerais e a Câmara de Proteção à Biodiversidade e de Áreas Protegidas, aprovaram, por unanimidade, a criação de duas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) na Serra da Piedade.

Nos processos de titularização, reconhecimento e atribuição do status de patrimônio cultural, o Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade é protegido pelas três esferas nacionais; municipal, estadual e federal. As referidas proteções deram-se a nível federal, em 1956, por meio de reconhecimento do Iphan; a nível municipal, em 2004, pelo reconhecimento da Prefeitura de Caeté e a nível estadual, pelo Iepha/MG, em 2006.

Por todo o exposto e considerando a relevância histórica, cultural, religiosa e ambiental do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade, dom Walmor Oliveira de Azevedo, considerando a significação histórica e cultural do Santuário propôs a criação de Museu a ser instalado na Serra da Piedade. Trata-se do futuro Museu Maria Regina Mundi, o qual será construído em uma área de 1.500 m² e receberá um acervo dedicado à Virgem Maria, com mais de mil evocações de Nossa Senhora.

Além do acervo, o Museu reunirá uma escola de arte e teologia. Assim, será espaço que promoverá a cultura. Também estará preservada no Museu Maria Regina Mundi a história do Santuário Nossa Senhora da Piedade, que começou a ser edificada a Ermida em 1767 (Dom Walmor, JORNAL O TEMPO, 22/07/16).

O projeto do Museu é assinado pelo escritório Gustavo Penna Arquiteto e Associados. De acordo com a proposta apresentada, a estratégia arquitetônica é pautada na ideia de se evidenciar a geologia definidora do lugar, criando uma percepção de um edifício invisível, misteriosamente incrustado nas rochas do Santuário.

Trabalhando no campo da metáfora, escolhemos a representação inconteste do divino: a Aura de pureza. Um anel metálico de 20m de diâmetro passa a pousar sobre a montanha de ferro, transformando-a em véu e manto de Maria. Simbolicamente, a maternidade divina liga-se à mãe natureza, ao mundo natural, humano. (MUSEU REGINA MUNDI, s/d.)

Para composição documental do acervo do futuro museu, o Memorial da Arquidiocese de Belo Horizonte já iniciou o processo de catalogação das peças do acervo. Levantamentos, pesquisas, históricos e coleta de depoimentos já estão sendo realizados, além da produção sistêmica das fichas de inventário de cada peça. Trata-se de um trabalho contínuo e, atualmente, cerca de 200 peças já foram tratadas, documentadas e catalogadas.

Projeto Museu Maria Regina Mundi/Fonte: Gustavo Penna Arquiteto e Associados.

 

Projeto Museu Maria Regina Mundi/Fonte: Gustavo Penna Arquiteto e Associados

 

REFERÊNCIAS

BRUSADIN, Leandro Benedini. A dinâmica do patrimônio cultural e o Museu da Inconfidência em Ouro Preto (MG). 2011. Tese (Doutorado) — UNESP, São Paulo.

CANCLINI, Nestor Garcia. O patrimônio cultural e a construção imaginária do nacional. In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. Brasília, n.23, 1994. 95 -111 p.

FOUCAULT, Michel. O pensamento do exterior. In: Estética: literatura e pintura, música e cinema. (Ditos e escritos, vol. III). 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001, p. 219-242.

Monumento Natural Estadual Serra da Piedade. Portal Meio Ambiente. Disponível em:

http://www.ief.mg.gov.br/component/content/article/3306-nova-categoria/2874-mona-serra-da-piedade  Acesso em 11 de março de 2022.

MUSEU MARIA REGINA MUNDI. Gustavo Penna Arquiteto e Associados. Disponível em: https://www.gustavopenna.com.br/museureginamudi Acesso em 11 de março de 2022.

Museu Maria Regina Mundi poderá ser inaugurado pelo papa Francisco. Jornal O Tempo. Publicação Digital. 22/07/16. Disponível em:

https://www.otempo.com.br/cidades/museu-maria-regina-mundi-podera-ser-inaugurado-pelo-papa-francisco-1.1342489  Acesso em 11 de março de 2022.

OLIVEIRA, Carlos Augusto de. A musealização do território como estratégia de gestão do patrimônio e administração de memória. In: Revista Memorare, v.2, n.2. Santa Catarina, 2015. p. 34-51.

OKAWARA, Aline et al. Serra da Piedade: berço da padroeira de Minas Gerais, Brasil. Minas Gerais: 2009. Disponível em: https://docero.com.br/doc/x85cexe. Acesso em 21 de março de 2022.

PEDROSA, Aziz José de Oliveira. A Basílica Ermida de Nossa Senhora da Piedade: memórias de um processo de reconfiguração arquitetônica. Patrimônio e Memória. Assis, SP, 2019, v. 15, n. 1, p. 408-432.

REIS, Flavia C., ARAÚJO, Luciana da Silva. O Santuário e a devoção Mariana na Serra da Piedade. Arquidiocese de Belo Horizonte, 2022. Disponível em:

https://centenario.arquidiocesebh.org.br/memoria/a-concepcao-do-santuario-e-a-devocao-mariana-na-serra-da-piedade/ Acesso em 11 de março de 2022.

Santuário de Nossa Senhora da Piedade completa 250 anos. Jornal Estado de Minas Gerais. Publicação digital. 01/10/2017. Disponível em:

https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2017/10/01/interna_gerais,904968/santuario-de-nossa-senhora-da-piedade-completa-250-anos.shtml  Acesso em 11 de março de 2022.

 

[1] Museóloga. Integra o corpo técnico de colaboradores do Memorial da Arquidiocese de Belo Horizonte. memorialmuseologa@arquidiocesebh.org.br

[2] Arquivista. Integra o corpo técnico de colaboradores do Memorial da Arquidiocese de Belo Horizonte.

memorialarquivista@arquidiocesebh.org.br

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