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Retiro espiritual: oportunidade de ouvir a si e a Deus

 

Nos primeiros meses deste ano, milhares de fiéis começam a se desligar da rotina do dia-a-dia e do cotidiano agitado da metrópole para se dedicarem por algumas horas, dias, ou mesmo, meses, para meditar a Fé e refletir sobre sua caminhada com Cristo.

Os nomes mais comuns para estes períodos e os mais populares entre os cristãos católicos são retiros espirituais, Tardes de Louvor ou de Maria – onde os fiéis dedicam orações marianas em honra a Virgem Santíssima -, ou encontros de jovens, onde nos deixamos levar pela nossa própria Fé, sendo conduzidos por Cristo a um encontro mais profundo com Ele, por meio de estudos da Sagrada Escritura, debates, dinâmicas entre grupos e Adorações ao Santíssimo Sacramento, reverenciando Aquele que nos criou e dedicou a maior parte de sua vida a nós.

Mas uma pergunta geralmente vem pairando a cabeça dos que vão embarcar nesta jornada: qual seria o verdadeiro significado de um retiro? Para o bispo auxiliar de Belo Horizonte, Dom João Justino de Medeiros, “todo retiro tem essencialmente o sentido de ‘retirar-se’, tomar distância por um breve tempo dos ambientes que marcam o dia a dia da vida, tendo em vista silenciar-se para a ‘escuta’ de si mesmo e, sobretudo, de Deus”. 

 

“Li nesses dias, no jardim de um mosteiro, a seguinte frase: ‘O Espírito Santo é educadíssimo. Somente fala quando nós nos calamos'”

“No afastamento do ritmo cotidiano e na experiência do silêncio, a pessoa vive um processo interior de decantação e de abertura de espaço ao mistério de Deus”, disse.
O Bispo Auxiliar acredita que o jovem, ao aceitar este desafio, deve “retirar-se” para “aquietar-se” e escutar a Deus, pois “está oferecendo a si mesmo uma oportunidade muito rica de crescimento na Fé e de fortalecimento da vida espiritual”.

Encontrar uma direção espiritual para a vida: neste quesito, Dom Justino exemplificou sua tese com base na passagem bíblica do Evangelho Segundo o Apóstolo São João: “Creio que a direção espiritual para a vida de cada um de nós é Jesus Cristo. Ele é o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6).

Mas, o fundamental mesmo para que o retiro espiritual proporcione aos participantes este encontro com Cristo, conforme o prelado, é a busca pelo silêncio e pela escuta da Palavra de Deus. “O silêncio é uma exigência para uma experiência mais radical de escuta”, ressaltou.

Dom Justino aproveitou a oportunidade para fazer um complemento a sua resposta:
“Li nesses dias, no jardim de um mosteiro, a seguinte frase: ‘O Espírito Santo é educadíssimo. Somente fala quando nós nos calamos’. Aparentemente muito simples, a frase fala uma verdade da tradição espiritual cristã. É no silêncio que podemos escutar melhor o que Deus tem a nos dizer. Outros eventos religiosos podem proporcionar interessantes experiências de Deus para os jovens. Mas os retiros, sobretudo de silêncio, dão algo preciosíssimo àquele que consegue vencer a tentação de ser ‘o dono da verdade’. A verdade é Jesus Cristo! Dela podemos nos aproximar, mas não tomar posse, manipulá-la.”

Ao comentar uma de suas experiências enquanto participante de um retiro, Dom Justino recordou-se de sua passagem da filosofia para a teologia, mais precisamente em dezembro de 1988, em um retiro inaciano de uma semana. “Depois voltei ao mesmo lugar e fiz uma experiência de um retiro pessoal – sozinho – durante alguns dias. Mais uma vez, o que me tocou profundamente foi o desafio do silêncio”, confessou.

Para ele, passados os primeiros dias do encontro, o silêncio torna-se uma necessidade para mergulharmos mais fundo “no encontro com Aquele que quer lhe falar”.

Quando perguntado sobre o que indicaria para as pessoas, ou mesmo jovens que vão participar pela primeira vez de um momento espiritual, o Bispo Auxiliar reforçou: “retirar-se é uma escolha que como tal comporta renúncias”.

“Esforce-se e deixe os trabalhos para trás. Organize-se de tal modo que as pessoas saibam que você foi para o retiro e que não deve ser incomodado. Comunique aos seus familiares e amigos mais próximos que você vai ‘desligar-se’ do celular, dos e-mails, do Facebook, das redes sociais, pois estará em oração. Deixe com alguém mais criterioso o número telefônico da casa onde estará para alguma eventualidade. Evite levar computador, Ipad, Iphone, celular”, explicou.

No final da entrevista, Dom Justino aconselhou a quem não teve essa experiência a fazê-la, pois “quanto mais só você conseguir ir, mais poderá escutar e curtir o retiro, mais chances terá de tocar o Mistério de Deus”.

 

Por Leandro Massoni Ilhéu
Agência Gaudium Press