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Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes

Já tendo iniciado o tempo da Quaresma, convém retomar o sentido espiritual desse tempo litúrgico tão marcante para a vida da Igreja. Que tempo é esse? A Quaresma é um tempo que antecede a Páscoa do Senhor. Tempo de revisitarmos a nossa condição batismal a partir da experiência da paixão do Senhor e da paixão do mundo: somos filhos e filhas no Filho de Deus, rejeitado pelo mundo e livremente entregue para a nossa salvação. Segundo a lógica do Ano B, que privilegia a leitura do Evangelho de Lucas, pelo Batismo nos tornamos um com ele. Com ele adentramos o deserto, guiados pelo Espírito, para a escuta mais atenta da Palavra e para resistir às tentações. Com ele subimos a montanha para contemplar a sua glória. Reconhecemos a radical bondade do nosso Deus, diante da nossa radical ligação com o mal que nos conduz à morte. Nele retornamos à casa do Pai, que no amor nos aguarda com festa, restaurando nossa dignidade de filhos e herdeiros. Também nele exercemos a compaixão e misericórdia, assumindo corajosamente nossa condição de pecadores.

Quaresma é tempo de ver nascer da provação e da dor a flor secreta da esperança cristã que tem um nome: ressurreição.

 

A recordação dos textos bíblicos não deixa dúvidas para quem participa das celebrações. A liturgia nos orienta fortemente para o culto existencial, para a vida que levamos neste mundo, para o nosso agir, sentir e pensar.    É nesse sentido que na Quaresma se intensifica o discurso a respeito da conversão, como processo permanente da vida cristã. Cada um é chamado a se rever à luz da Palavra de Deus que rege a nossa relação de Aliança com Ele. Temos sido bons ouvintes e praticantes da Palavra?

 

Somos filhos obedientes como Jesus que realizou inteiramente a vontade do Pai. Temos buscado a Deus na oração? Somos solidários com os irmãos que sofrem (doentes, pobres, marginalizados…), reconhecendo neles a face de Jesus crucificado? Temos fortalecido a liberdade dos filhos de Deus por meio do exercício de renúncia voluntária de algo, a fim de nos tornarmos mais focados no Evangelho, mais fraternos e humanos, mais orientados para Deus? A todas essas questões, associa-se o elemento comunitário da fé, pois a conversão verdadeira não se faz sem o vínculo eclesial: somos membros de um Corpo, parte de um povo, cidadãos de um Reinado, irmãos da mesma família. A condição de pecado nos irmana e iguala a todos. Só Deus é santo.

 

Nossa solidariedade nos faz buscar conjuntamente a Deus e, na fraternidade, crescer na fé, na esperança e no amor. O cristão trilha na comunidade o autêntico caminho de conversão. Também como cristãos no mundo, somos igualmente atentos às dores de uma humanidade que geme e sofre em dores de parto (cf. Rm 8,22). Se à sociedade e à cultura contemporâneas assustam os problemas das drogas, da violência, da miséria e tantas outras mazelas, aos cristãos geram sentimentos de compaixão e de amor. A dor do mundo não é questão do outro. Não vivemos indiferentes aos problemas alheios, tão pouco nos intrometemos em particulares e intimidades. Mas rezamos, segundo a lógica de um povo sinal e sacerdotal que intercede e mostra o caminho, que estende a mão para elevar. Um povo que antecipa e experimenta as realidades futuras que Deus deseja e prepara para todos. Nessa lógica, o nosso pedido de perdão não é apenas para nós mesmos, mas para o mundo. O mistério do mal, do pecado e da morte também nos irmana com os demais seres humanos. O Espírito que nos habita, nos faz clamar com o Filho pelo perdão de todos que aniquilam e rejeitam a vida, sem contudo nos sentirmos melhores que ninguém, pois aquele que não tiver pecado, seja o primeiro a atirar uma pedra (cf. Jo 8,7).

 

Quaresma é ainda e, sobretudo, tempo direcionado para a Páscoa.  Tempo de ver nascer da provação e da dor a flor secreta da esperança cristã que tem um nome: ressurreição. É tempo de voluntariamente entrar no “trabalho de parto” de uma nova vida pelos exercícios da penitência. Tempo de poda para que a seiva do Espírito faça multiplicar os frutos tão mirrados ao longo do caminho. Oportunidade para prestar atenção ao essencial, ao que realmente importa na vida cristã. A liturgia, como Mestra, nos indica esse sentido para a Quaresma: um tempo para rasgar o coração e não as vestes (Jl 2,13) e para nos revestir do homem novo, Jesus Cristo.

 

Pe. Danilo César
Doutor em Liturgia e coordenador da
Comissão de Subsídios da Arquidiocese de BH

 

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