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Querígma – Uma Igreja que anuncia a alegria do Cristo Ressuscitado – artigo de Neuza Silveira, Comissão Arquidiocesana Bíblico-Catequética de BH

Para anunciar a Boa-Nova  de Jesus Cristo precisamos estar atentos aos sinais de Deus. O primeiro passo para entender os seus sinais é a fé. Quem não tem fé vê as mesmas coisas e participa dos mesmos acontecimentos, mas não lhes entende o sentido. É como muitas pessoas que, embora vejam  as letras, os sinais, não sabem interpretá-los. Mas também não podemos esquecer que há o desejo de Deus inscrito no coração do ser humano, já que todos são criados por Deus e para Deus. Ele está, desde o princípio, a atrair o ser humano a si, para viver no seu amor. Esse desejo, muitas vezes escondido, está bem lá no fundo do nosso coração à espera de uma pequena abertura para aflorar e fazer acontecer as mudanças no nosso jeito de ser e crer.

Deus está em nós e, quando colocamos-nos na escuta do nosso interior, nos facilita observar os seus sinais. O silêncio faz-nos  observar mais de perto a carência do nosso coração.  O caminho interior nos fortalece e nos leva a nos abrir para a verdade. Segundo Bento XVI, em sua audiência Geral de  07/11/2012, precisamos ser educados  desde a infância para saborear as verdadeiras alegrias, em todos os âmbitos da existência: a família, a amizade, a solidariedade para com o outro, a renúncia do próprio eu para servir ao outro, o amor pelo conhecimento, pela arte, pela beleza da natureza etc. Tudo isso significa exercitar o gosto interior, aprimorar nossos sentimentos e nos ajudar a ver melhor o bem,  a ver os sinais de Deus e sua presença no meio de nós. Presença que é mistério, mas  que a cada uma das nossas experiências de vida, somos conduzidos em direção a Ele. Assim, em vários momentos de nossa vida “experimentamos Deus”.

Como podemos experimentar Deus?

A fé afirma que não há humanidade autêntica, a não ser nos lugares, nos gestos, nos tempos e nas formas como o homem é animado pelo amor que vem de Deus, se expressa como dom, se manifesta em relações ricas de amor, de compaixão, de atenção e de serviço abnegado ao próximo  

Fazemos experiências de Deus porque nos abrimos à fé. É ela que nos possibilita compreender a Boa-Notícia, o Evangelho de Jesus. Temos como exemplo os primeiros cristãos que assumiram e utilizaram o termo evangelho para definir o ‘evento Jesus Cristo’. Assim, o evangelho é a mensagem salvífica, anunciada pelos apóstolos, oralmente, anunciando a vida e a obra de Jesus, pois ele é a “Boa-Notícia” do Pai revelada aos homens.

Hoje temos por escrito toda essa experiência dos Apóstolos e os primeiros discípulos.  Assim podemos ler no livro dos Atos dos Apóstolos (2,14-36; 3,12-26; 10,37-43; 13,16-47) e nas Cartas Paulinas (1Cor 15,3-5) os ensinamentos do primeiro anúncio quando Pedro e Paulo dirigiam aos seus ouvintes em sua pregação. É esse anúncio que é chamado de “Querígma”.

O Papa Bento XVI nos traz uma boa interpretação do querígma em suas “Catequeses sobre a fé. Ele nos diz em sua catequese de 17/10/2012: “Deus revelou-se mediante palavras e obras em toda uma longa história de amizade com o homem, que culmina na Encarnação do Filho de Deus e no seu Mistério de Morte e Ressurreição. Deus não só se revelou na história de um povo, nem falou só por meio dos Profetas, mas atravessou o seu Céu para entrar na terra dos homens como homem, para que pudéssemos encontrá-lo e ouvi-lo. E de Jerusalém o anúncio do Evangelho da salvação propagou-se até aos confins da terra. A Igreja, nascida do lado de Cristo, tornou-se portadora de uma esperança nova e sólida: Jesus de Nazaré, crucificado e ressuscitado, Salvador do mundo, que está sentado à direita do Pai e é Juiz dos vivos e dos mortos. Este é o kerigma, o anúncio central e impetuoso da fé”.

Quando da celebração do cinquentenário da inauguração do Concílio Vaticano II, Bento XVI nos chama a atenção para considerar esse tempo como uma ocasião importante para voltar para Deus, a fim de aprofundar e viver com maior coragem a própria fé, para fortalecer a pertença à Igreja, «mestra em humanidade» que, através do anúncio da Palavra, da celebração dos Sacramentos e das obras de caridade, nos orienta para encontrar e conhecer Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Trata-se do encontro que se dá não com uma ideia, nem com um projeto de vida, mas com uma Pessoa viva que nos transforma em profundidade a nós mesmos, revelando-nos a nossa verdadeira identidade de filhos de Deus.

Assim, hoje, quando a Igreja nos chama a refletir sobre a Iniciação à vida Cristã, ela nos convoca para um pensar sobre a Igreja como  uma comunidade  também querigmática, peregrina e misericordiosa. Uma Igreja que carrega consigo o Evangelho no coração e nas mãos. Uma Igreja vigilante e acolhedora, que está sempre atenta àquelas pessoas que necessitam de acolhimento. Ela não pode ser exclusiva.  Não está ligada a nenhuma raça ou nação, a nenhum gênero de vida particular ou a um costume qualquer. Aderindo à própria tradição e consciente de sua missão universal, é capaz de entrar em comunicação com as diversas formas de cultura. O Evangelho de Cristo está sempre a renová-la, tornando-a fecunda  com os tesouros do alto, as qualidades de Espírito e os dotes de todos os povos e tempos.  Ela foi  feita ” Sacramento do Cristo”, recebendo dele o seu Espírito para ser a continuadora da sua obra.

A fé afirma que não há humanidade autêntica, a não ser nos lugares, nos gestos, nos tempos e nas formas como o homem é animado pelo amor que vem de Deus, se expressa como dom, se manifesta em relações ricas de amor, de compaixão, de atenção e de serviço abnegado ao próximo.

O Papa Francisco muito nos anima ao falar sobre a fé em Jesus Cristo, o Ressuscitado. Ele nos fala que saber que Jesus está vivo nos traz muitas alegrias, a esperança enche o coração e as alegrias não podem ser contidas. Isso deveria verificar-se também em nossa vida. Sintamos a alegria de ser cristãos! Ele nos pede que acreditemos num Ressuscitado que venceu o mal e a morte! Que tenhamos a coragem de «sair» para levar esta alegria e esta luz a todos os lugares da nossa vida! A Ressurreição de Cristo é a nossa maior certeza; é o tesouro mais precioso! Como não compartilhar com os outros este tesouro, esta certeza? Não é somente para nós, devemos transmiti-la, comunicá-la aos outros, compartilhá-la com o próximo. Consiste precisamente nisto o nosso testemunho. Assim, conhecer Deus, encontrá-lo, aprofundar os traços da sua Face põe em jogo a nossa vida, pois Ele entra nos dinamismos profundos do ser humano.

 

 

 

 

Neuza Silveira de Souza. Coordenadora da Comissão
Arquidiocesana Bíblico-Catequética de Belo Horizonte.