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Quem mexeu na minha paróquia?

Constantemente somos surpreendidos por situações que fogem de nosso domínio, ou melhor, de  nossas expectativas, essas situações, podemos dizer, são, muitas vezes, a ação de Deus em nossas vidas. Por saber, sempre, o que é melhor para cada um de seus filhos, procura agir “de surpresa”. Assim, não precisa obedecer àquilo que nós, de certa forma, planejamos para ser sua atuação, como se fossemos os responsavéis por ditar como Ele deveria agir.

 Na verdade, às vezes tenho a impressão de que se Deus não se cuidar, acabará sempre fazendo nossa vontade e não a d’Ele, o que a princípio poderia parecer para nós uma realidade fantástica. No entanto, depois, seria um caos para nossa vida, pois nunca sabemos nem como, nem quando e o que pedir. Ainda bem que estamos guardados pelo amor de Deus e temos a segurança de que nossas vidas estão em boas mãos.

Mas não basta saber disto, é necessário valorizar nossa vida como dom de Deus e, sendo assim, todas as ações que realizamos devem também ser vistas como parte desse dom, não como mérito nosso. Sobretudo, nossa ação na Igreja, como eclesiásticos ou leigos, deve ser realizada como serviço, a exemplo de Maria que se fez Serva do Senhor. Até nos colocamos como voluntários, missionários, dizemos com o maior orgulho que fazemos tudo pela causa do Reino, mas basta algo sair do controle de nosso voluntariado para  perdemos o rumo.

Tudo vai bem enquanto está bom para nós, essa é a certeza de que nossa vontade está sendo feita e de que as coisas caminham sob nosso comando. Se algo extravia, nos colocamos logo a perguntar: Quem mexeu na…?- aqui, gostaria de usar a idéia de um livro que se tornou famoso também no Brasil, porque realmente foi escrito com a idéia de nos fazer pensar sobre o apego a coisas que não nos deixam ver a vida com um olhar diferenciado e nos impede de avançarmos. No campo religioso usaria a parábola justamente com a pergunta: Quem mexeu na minha “paróquia”?

 

Não tenhamos medo
de que outros irmãos venham somar conosco. O importante é abrir o coração e acreditar que cada pessoa pode fazer muito com o pouco que contribui.

Esse questionamento deseja, significativamente, mexer não com nossa “paróquia”, mas com nossas estruturas obsoletas edificadas por nós mesmos e por nossas convicções às quais nos apegamos e com as quais acabamos edificando nossos reinozinhos. Parece que para nos mantermos na ativa faz-se necessário termos não colaboradores, mas súditos. E o que mais impressiona, até mesmo a psicólogos, sociólogos e pastoralistas, é como sempre nos reinos há lugar para pessoas que se prontificam a assumir tais papéis. O problema é que elas, como seus reis e rainhas, não se dão conta de que o verdadeiro reino não é desse mundo, pois qualquer que seja o reino edificado por aqui, ele é efêmero.

De que valeria, por exemplo, apegar-se a uma rosa que hoje é e, amanhã, não estará mais, pela sua efemeridade? Pois bem, dizemos sempre que há gente prá tudo. O Papa Francisco tem demonstrado para a Igreja e o mundo que a ação do homem só tem sentido quando ele age em favor do outro e não  de si mesmo ou de ideologias edificadas por alguns que detêm o poder de “agir”.  E essa reflexão é proposta aqui não só para o clero. Numa Igreja que pensa cada vez mais em protagonizar os leigos para fugir do clericalismo, é preciso estarmos atentos para não cairmos na tentação de vivermos à sombra de um “leigoclerismo” que também vai em direção contrária do que pensou o Concílio Vaticano II sobre a atuação dos leigos na Igreja.

Creio que todos necessitamos de verdadeira renovação pastoral para, de fato, nos colocarmos a serviço da edificação do Reino de Deus. Não tenhamos medo de que outros irmãos de nossa comunidade, e fora dela, venham somar conosco, sejam eles jovens ou mais experientes. Sejam eles forasteiros ou próximos, o que talvez seja mais incomodo para nós. O importante é abrir o coração e acreditar que cada pessoa pode fazer muito com o pouco que contribui. Quem sabe não foi o próprio Deus que mexeu em nossa paróquia?

 

 

 

 

 

 

 

 

Pe. Jorge A. Filho
Pároco da Paróquia Maria Serva do Senhor, BH