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Quaresma: tempo para cultivar a amizade

“Perdi-me amando-me desordenadamente; mas, buscando a vós unicamente, e amando com puro amor, a mim me achei e a vós também, e este amor me fez ainda mais aprofundar-me em meu nada.” (Imitação de Cristo, Livro III, Cap.8, 2)
            
O fundador da nossa comunidade se refere à Quaresma como um “tempo humilde” por existir em função de outro tempo: a Páscoa. É bastante interessante esta reflexão. A Quaresma também é um tempo pobre, pois é vivido na pobreza do deserto. Nele não há muitos enfeites. Não celebramos a memória dos santos, não temos flores nas igrejas, o canto deve ser comedido, somos convidados a práticas de jejum e abstinência, guardamos o ‘aleluia’ para proclamá-lo no momento oportuno… Este tempo nos conduz à simplicidade, ao empobrecimento, à pureza… Tira nossos excessos para ficarmos com o ‘único necessário’.

O trecho da Imitação de Cristo citado acima é muito oportuno. A Quaresma nos convida ao amor puro que só se alcança buscado unicamente a Deus. Esta busca faz com que nos encontremos a nós mesmos. Eis aqui uma grande riqueza do deserto: ao tirar nossos excessos, podemos nos enxergar com mais verdade e nos encontramos com Jesus de coração a coração.

Penso em uma comparação bem simples, mas que para mim é bem útil. Imaginemos o encontro de dois grandes amigos que estarão juntos por 40 dias. Se todo este tempo é vivido em uma viagem animada onde passarão cada dia visitando lugares diversos, conhecendo novidades, indo ao cinema, fazendo passeios,  participando de shows e espetáculos, indo aos mais variados restaurantes… com certeza irão desfrutar com intensidade da companhia um do outro, mas se passarem os mesmos 40 dias em um deserto na completa ausência de atrativos exteriores, caso tenham a coragem de superar a suposta monotonia deste ambiente, irão desbravar um mundo profundamente mais rico e talvez bastante desconhecido: o coração um do outro.

 

Estar no deserto com Jesus é estar só com Ele. É deixar que Ele nos fale ao coração e também fazer a experiência de falar-lhe dos nossos sentimentos, nossas aspirações, nossos anseios de conversão

Uma convivência intensa é muito desafiadora. Lembro-me muito bem de quando fui para o noviciado com meus três irmãos noviços. O ambiente era para nós um verdadeiro deserto: muito silêncio, poucos recursos, pouquíssimas visitas. Não havia como fugir da convivência. Precisávamos nos ‘esbarrar’ cada dia e nos humilhar revelando nossas fraquezas e pecados, crescendo na mútua oferta. O ambiente praticamente nos ‘obrigou’ a vencer as diferenças e crescer em fraternidade, pois não podíamos nos esquivar uns dos outros.

A amizade cultivada com Jesus no deserto é fruto de uma convivência íntima onde não há nada que possa distrair nossa atenção. Estar no deserto com Jesus é estar só com Ele. É deixar que Ele nos fale ao coração e também fazer a experiência de falar-lhe dos nossos sentimentos, nossas aspirações, nossos anseios de conversão. É chorar nossos pecados reclinados em Seu peito e, embora humilhados, ali permanecer seguros.

O silêncio e austeridade do deserto nos fazem perceber com mais clareza a tentação que não cessa de nos convidar ao amor próprio, à busca de nós mesmos. Como que nos apresentando uma miragem, tenta nos convencer de que buscando nossos próprios interesses vamos nos encontrar. Mas basta olhar para o Senhor para recordar que é perdendo a vida por amor a Ele que nos encontramos.

O deserto nos faz o convite de nos confrontarmos com nossa verdade mais profunda amando unicamente o Senhor. “…e este amor me fez ainda mais aprofundar-me em meu nada”. O que nos purificam não são as penitências, mas o amor. E é justamente este amor que nos faz reconhecer com verdade nosso nada absoluto. Somos um ‘nada’ orgulhoso, mas um ‘nada’ muito amado. O amor de Jesus nos despoja, pois penetra o que há de mais profundo em nossa alma desprezando as aparências. Ele vê a verdade ‘na lata’, sem máscaras e mesmo onde há maldade Ele enxerga a potencialidade. Onde há desordem, Ele não procura os sintomas, mas toca na raiz a ferida do pecado, origem de toda a desordem, e cura com o perdão o coração arrependido.

 

Quanto melhor reconhecermos que somos ‘nada’, melhor compreenderemos a medida do amor de Deus, pois enquanto nos sentimos grandes, dignos de estima, de honras, de louvores e consideração pelos homens acabamos por acreditar que é uma obrigação de Deus nos amar. Mas se entendemos que não somos nada e que sem Ele nada podemos fazer, temos a oportunidade de experimentar um amor gratuito e amigo que ama porque ama, ama para amar, que nos escolheu livremente e desejou nos abrigar em Seu coração.

Irmãos e irmãs, neste tempo favorável, reconheçamos que somos pó e cinza, somos nada diante d’Aquele que é tudo, é grande, é absoluto. Desfrutemos desta amizade que Jesus quer cultivar conosco no deserto e permitamos que Seu amor nos converta.

 

Ludmila Rocha Dorella
Consagrada da Comunidade Católica Árvore da Vida
Formadora Geral