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Quaresma e conversão da Igreja

 

Imprescindível a cada quaresma é a consciência da necessidade de conversão da Igreja. Podemos voltar sempre ao convite inicial da quarta-feira de cinzas, pelo qual o profeta Joel chama o povo para se arrepender (Jl 2, 12-18). Não somente alguém deve se converter, mas o povo de Deus. Esse povo, a Igreja, é o lugar da conversão individual.

 

A figura da videira, como Cristo tendo os fiéis como ramos, é irretocável. Os discípulos só podem dar frutos em Jesus e todos estão unidos n’Ele

A conversão acontece desde cada pessoa. Cada um torna-se agente da conversão de toda a Igreja nas suas opções pessoais. Quem olhar para Igreja como sendo algo a mudar, como fiel, sem se incluir, ainda não entendeu o sentido eclesial de sua vida pessoal. A Igreja carente de conversão é cada fiel. E cada fiel é a Igreja, pedra viva do edifício espiritual (1Pd 2, 4-5), corpo de Cristo (1Cor 12). Ligada a Jesus Cristo, cada pessoa forma a Igreja. Cada um ocupa seu lugar no crescimento espiritual da grande família de Deus.

 

Paulo bem sabia o quão importante é tomar consciência dessa realidade. Por isso, o apóstolo dos gentios dedica suas cartas à reflexão sobre a vida eclesial, algo digno de nota (1Cor 12; Rm 12, 4-5; Cl 1, 18; Ef 4, 4-5). Para Paulo, há uma unidade espiritual profunda entre os membros da Igreja em Cristo Jesus. No corpo de Cristo todos são importantes. Vivem da mesma dignidade de pertencer ao mistério do Cristo Total, no qual e para o qual todas as coisas foram criadas e recapituladas (Cl 1, 15-20). Neste modelo paulino, está presente a consciência cristã estruturada no movimento dos crentes em Jesus. No Evangelho de João temos mais um exemplo do pensamento dos discípulos de Jesus sobre essa matéria. No capítulo 15, a figura da videira, como Cristo tendo os fiéis como ramos, é irretocável. Os discípulos só podem dar frutos em Jesus e todos estão unidos n’Ele.

É Paulo, ainda, quem nos recorda que somos vasos frágeis a carregar um grande tesouro ( 2Cor 4, 7). Temos Cristo em nós. Dele nos vem a salvação e a unidade com Deus e os irmãos, com estes sendo Igreja. Nossa fragilidade está suscetível a muitos desânimos, a muitas lutas (2Cor 4, 8-15). Pela nossa condição limitada passa a morte do pecado. Todavia, não se extinguem as possibilidades de transformação da própria vida em Cristo Jesus. E essa característica da vida cristã faz entender o porquê da Igreja precisar de sempre tomar o caminho do arrependimento. É em nós que a Igreja se mancha e também em nós que se purifica.

Nossa vida de pecado é a vida da Igreja. Nossa vida de santidade é a vida da Igreja. Somos Igreja. Na mudança pessoal melhoramos a vida da Igreja e exercemos nosso sacerdócio no Sacerdócio de Cristo, apresentando a Igreja sem máculas ao nosso Deus. Quando algum fiel se converte toda a Igreja vive esse estado de Graça, pois nele passa a força viva de Cristo Jesus. Assim como no “Eu Creio”, ao confessar a fé individualmente, está o “Nos Cremos” da Igreja, por confessarmos a Fé que vivemos na Igreja, a mudança pessoal é um “Eu” que é “Nós”. Além disso, a santidade é fruto de uma relação com o Santo de Deus. É Graça de Deus a Fé, também é Graça de Deus viver segundo a Fé.

 

Conversão pessoal e social na Igreja são faces de uma expressão comum, da mesma moeda. Uma alimenta a outra. Ambas nascem do mesmo impulso renovador de Jesus

Santidade, mudança de vida, é abertura para o além de nós, o horizonte de sentido da vida e da salvação. O apelo à penitência quaresmal é momento forte de adesão e renovação da Fé em Jesus e seu jeito de ser, para que a Igreja, em nós, encontre caminhos de libertação, contínuos, das amarras do pecado. Conversão pessoal e social na Igreja são faces de uma expressão comum, da mesma moeda. Uma alimenta a outra. Ambas nascem do mesmo impulso renovador de Jesus, da memória “perigosa” de sua vida para o mundo, para sua Igreja peregrina no mundo.

Isso não constitui, por outro lado, motivos de vaidade. Mudar não é uma forma pretensiosa de se exibir aos outros. A Igreja não procura a santidade para ser centro das atenções. Ser sal, sabor, é a finalidade da mudança (Mt 5, 13). O objetivo é dar consistência e alegria, alma, vida de Deus para tudo. Por uma vida digna de ser vivida a Igreja pode ser a alma do mundo como luz e sal, mesmo quando não compreendida.

Na Carta a Diogneto, antigo escrito cristão, a vida dos seguidores de Cristo é para o mundo vitalidade (Cap. VI) e harmonia. Na intenção de ser vocacionalmente o que Deus quer, a Igreja não deveria buscar a lógica das aparências. Tal situação leva ao esvaziamento de suas práticas, pois estaria buscando a si mesma, mais do que ao Senhor. Como diz o livro espiritual a Imitação de Cristo, “muitos se buscam a si mesmos nas obras que fazem e não o percebem” (Cap. XIV), deixando de lado a rota viva da conversão pela autopromoção (Mt 6, 1-18).

A penitência é, sobretudo, caminho para Deus, pela conformidade de vida a Ele, certamente remédio e refrigério para o mundo. Não é uma conquista do mundo. É uma luta por si que traz um grande bem. A santidade da Igreja só é de fato santidade quando se expressa como viver em Cristo. Mudar não está condicionado a dar uma resposta à sociedade, mesmo sendo um bem para a mesma. É, na verdade, uma resposta nossa a Deus, e nesse sentido, por ser dada ao Sumo Bem, é um presente para a humanidade. Qualquer coisa diferente pode conduzir a estratégias de poder e hipocrisia.

 

Pe. Magno Marciete do Nascimento Oliveira
membro da Comissão Arquidiocesana de Catequese