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Quando o Espírito de Deus nos arrasta…

 

Tradicionalmente, as tentações de Jesus foram interpretadas num sentido moralizante; costumava-se dizer que Jesus nos quer dar o exemplo de como superar nossas tentações cotidianas; ou seja, Jesus nos dá o exemplo de fortaleza vencendo as três tentações. Tal interpretação não capta em toda sua profundidade o sentido das “tentações de Jesus”.

 

Tendo Jesus revelado sua presença nas “periferias” do mundo, porque deseja assumir toda a história a partir daí, nós também temos de voltar constantemente o olhar para as “novas periferias”, a partir de onde Ele continua nos questionando

As tentações não são tanto uma prova a superar quanto um
Projeto que deve ser discernido. O que parece certo, teológica e historicamente, é a firmar que Jesus, depois do batismo, buscou o deserto para um tempo de discernimento, em oração, em solidão, diante do Pai que o proclamou seu Filho, sob o impulso do Espírito; de algum modo teve de refletir e discernir sobre qual seria seu estilo messiânico, que tipo de messianismo assumiria para sua missão em sua vida pública. É um tempo de luta interior, de crise.

A “crise” põe à prova sua atitude frente a Deus: como viver sua missão e a partir de quê lugar? Buscando seu próprio interesse ou escutando fielmente sua Palavra? Como deverá atuar? Dominando os outros ou pondo-se a seu serviço? Buscando sua própria glória ou a vontade de Deus?

As tentações são, pois, expressão da oferta de dois tipos de messianismos, dois projetos, duas lógicas que se opõem.

* Por um lado, está a lógica da autossuficiência, da segurança, a partir do centro, a partir de cima, um messianismo triunfalista, evitando conflitos com o poder político e religioso, alheia ao sofrimento do povo; uma lógica que supõe adaptação ao “sistema”,
ser servido antes que servir.

* E, por outro lado, aparece a lógica da solidariedade, a partir da margem e da periferia da sociedade política e religiosa, a partir do povo, a partir de baixo, vivendo a filiação e a confiança no Pai, em gratuidade, num estilo de simplicidade e pobreza alternativo ao “sistema”, optando por servir antes que ser servido, uma lógica de inclusão e de vulnerabilidade frente o sofrimento do povo, na linha do Servo de Javé e dos grandes profetas de Israel.

* Jesus escolhe a lógica da solidariedade, a partir de baixo. Mas essa opção de Jesus não é voluntarista, senão que é fruto da experiência batismal do sentir-se Filho, sob o poder vivificador do Espírito do Pai que o levará a atuar sob seu impulso. A partir desse discernimento e opção, o messianismo de Jesus se manifesta como “diferente” daquilo que muitos esperavam em Israel.

Jesus é “Jesus de Nazaré”, o Galileu, o Nazareno, mas tanto Nazaré como Galileia não são mera conotação geográfica, senão teológica, são opções por uma vida humilde e pobre, a vida de um artesão de um lugar desconhecido e desprezado pelos grandes deste mundo: “De Nazaré pode sair algo de bom?”

O fato surpreendente é que Jesus, após o batismo e a experiência do deserto, começa a falar e a agir a partir da margem geográfica, cultural, religiosa e econômica da Palestina: a Galileia.

Enquanto todos tinham os olhos voltados para o centro (sobretudo para o templo de Jerusalém onde era elaborado o saber que ia se expandindo até chegar à menor das sinagogas), Jesus movimenta-se em direção contrária: sobe para o centro, a partir da mais baixa periferia.

Jesus descentraliza o mundo a partir da periferia. Isso quer dizer que o “centro” da história teve seu aparecimento na “periferia”. A vida de Jesus é “excêntrica”, porque não combina nem se ajusta com a construção social de todos aqueles que controlam o mundo a partir do centro. Portanto, Jesus descentraliza a história para sempre e situa o surgimento da salvação nas terras excluídas.

A ação de Deus provoca um deslocamento geográfico e social. O centro da história já não se encontra em Roma, nem em Jerusalém, mas sim na “margem”. Sendo assim, todo aquele que pretende encontrar-se com Jesus terá de voltar a cabeça e peregrinar em direção às margens.

 

Vivendo no meio de uma realidade conflituosa, de exploração, de desintegração das instituições, de injustiças… Jesus, unido ao Pai, torna-se aluno dos fatos, descobre dentro deles a chegada da hora de Deus

Além disso, as tentações acompanharam Jesus durante toda sua vida, como apontam claramente os Evangelhos. Isto quer dizer, obviamente, que o discernimento, que Jesus teve de fazer sobre sua própria vida e sobre sua missão, não foi experiência de um dia ou de um momento. O Jesus que os discípulos e os primeiros seguidores conheceram não é um Jesus arquiteto do Reino de Deus, que a priori conhece todo o plano e que, tal como o engenheiro que conhece um projeto em seus
mínimos detalhes, o executa ao pé da letra.

O Jesus dos discípulos é um Jesus que busca, que reza, que se vê na encruzilhada de optar entre várias possibilidades, que se retira ao deserto para descobrir qual é a Vontade do Pai, que elabora progressivamente seu projeto global e passa depois às opções concretas.

Tudo isso iluminado e orientado a partir de uma opção fundamental: a opção pela solidariedade com todos aqueles que em suas vidas só experimentaram a exclusão. E isso, mantendo-se fiel até o final
mesmo à custa de encontrar-se em situações extremamente difíceis e de ser envolvido nas circunstâncias mais desesperadoras.

Portanto quando nos perguntamos por que foi Jesus tão liberal naquilo que se refere às leis, normas e tradições religiosas, e por que foi tão radical a respeito da justiça, do amor e da proximidade junto aos pobres, doentes e excluídos, a resposta é clara.  O segredo de tudo está na opção fundamental que Ele assumiu no batismo e a manteve durante suas tentações, ou seja, a opção pela solidariedade, como meio e caminho para realizar sua missão.

Jesus rompeu com segurança proporcionada pela família, afastou-se da vida normal que levava, iniciou uma vida itinerante e passou a viver a partir de um sonho: a utopia do Reino. Vivendo no meio de uma realidade conflituosa, de exploração, de desintegração das instituições, de injustiças… Jesus, unido ao Pai, torna-se aluno dos fatos, descobre dentro deles a chegada da hora de Deus e anuncia ao povo:  “Esgotou-se o tempo! O Reino de Deus está próximo! Mudem de vida! Acreditem nessa Boa Notícia” (Mc 1,15).

Ele vem realizar as esperanças do povo, provocadas e alimentadas ao longo dos séculos, pelos profetas. Com sua vida e sua palavra, Jesus interrompe o discurso dos especialistas sobre Deus. Ele não tinha uma instituição em que pudesse apoiar-se; tudo brotava de dentro.

Jesus Cristo é o homem das “grandes viradas”: a surpresa, o desapontamento e o conflito que Ele provocou ensaiam cada dia novas palavras e novos gestos. Tendo Jesus revelado sua presença nas “periferias” do mundo, porque deseja assumir toda a história a partir daí, nós também temos de voltar constantemente o olhar para as “novas periferias”, a partir de onde Ele continua nos questionando.
Texto bíblico: Mc. 1,12-15

 

 

Pe Adroaldo Palaoro, SJ
Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana