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Por uma ação paroquial mais missionária

Realizada no ano de 2007, a Conferência de Aparecida é uma voz recente, esperançosa e confiante na missão missionária da paróquia. As reflexões contidas nesse Documento mostram o anseio de que a paróquia seja missionária e, de modo otimista, representam uma oportunidade para que isso aconteça (cf. DAp 173). É possível observar, entretanto, que essa ação esbarra em muitas dificuldades. A começar pela dificuldade da estrutura paroquial vigente, que tem vários séculos e quase sempre é coordenada por párocos descrentes à mudanças e propensos à manutenção do que já existe.

Pensar uma paróquia missionária implica redimensionar seu âmbito estrutural, de ação, de mentalidade e de evangelização. Outra dificuldade é a falta de uma ação missionária permanente na paróquia. Esse embaraço acontece em face do pouco interesse dos párocos, bem como por não haver pessoas que acreditem no processo, ou ainda por falta de conhecimento sobre sua importância evangelizadora. A terceira dificuldade é a falta de um projeto orgânico que englobe as necessidades evangelizadoras que norteiam a paróquia e que se faça capaz de orientar uma ação missionária duradoura.

O Documento de Aparecida indica várias condições que convergem para uma paróquia missionária. Destaquemos as três que julgamos mais relevantes:

– A paróquia deve constituir-se de pequenas comunidades. Este é um propósito da Igreja no Brasil e convoca para a setorização paroquial em pequenas comunidades ou grupos de famílias (cf. DAp 372; 403; 406; 413; 458; 505; 508; 513-518). Tal condição rebusca a ação missionária dos primórdios cristãos, quando a evangelização acontecia nas casas de famílias, orientada por discípulos missionários locais. Adotar esta dinâmica, valorizando a comunitariedade, é ampliar a presença social da Igreja e aumentar a responsabilidade de todos. A dinâmica da comunitariedade eclesial aprimora a transmissão da fé, pelo aprendizado personalizado de um para com o outro; descentraliza e alarga as ações paroquiais, torna a paróquia menos institucional e mais doméstica. A evangelização desloca-se mais para a casa e menos para o templo; descentraliza o poder e valoriza a simplicidade da transmissão do Evangelho. Deste modo, a paróquia confere à Igreja uma nova “cara”. De anunciadora de si mesma, a Igreja passa a anunciar mais o Reino de Deus; do seu fechamento doutrinal, passa a ter uma identidade mais missionária. Por outro lado, a sede paroquial e as capelas precisam continuar existindo, visto serem importantes para a reunião eucarística e para a orientação missionária das comunidades.
 

Os discípulos de Jesus são todos aqueles que se sentem chamados por Deus e assumem a vocação cristã de constituir o povo de Deus, seguindo a Jesus, unindo e trabalhando para que a fé dê sentido à vida

– A segunda condição para uma paróquia mais missionária consiste em promover e valorizar a ação dos discípulos missionários de Jesus. O discipulado de Jesus é um dos temas fundamentais no cristianismo. Através do discípulo, a mensagem do Reino é testemunhada e anunciada ao mundo pela força do Espírito. Os discípulos agem e suscitam outros discípulos para constituírem comunidades cristãs. Sem verdadeiros discípulos de Jesus a Igreja é uma instituição como outra qualquer.

 

O rosto da Igreja deve refletir o rosto dos discípulos que dela participam. A união de carismas (cf. DAp 164-175) e a vivência comunitária da fé pelo discipulado são condições imprescindíveis de uma Igreja em estado permanente de missão. Os discípulos de Jesus são todos aqueles que se sentem chamados por Deus e assumem a vocação cristã de constituir o povo de Deus, seguindo a Jesus, unindo e trabalhando para que a fé dê sentido à vida, e a vida seja uma resposta da fé. Todos – bispos, padres, religiosos e leigos – são vocacionados ao discipulado de Jesus. Para isso, compete à paróquia um aggiornamento social, eclesial e de fé. Essa atualização exige mais partilha de responsabilidades na paróquia, além de abertura ao diálogo e à novidade, leitura diária do Evangelho, celebrações menos hierárquicas e mais próximas da vida do povo. A descentralização de poder exige a valorização direta de leigos na gestão paroquial e na evangelização (cf. DAp172). Sem esforço, participação e decisão conjunta, conversão, desejo e coragem de mudar, não haverá missionariedade paroquial (cf. DAp 365; 384; 454; 537; 538).

– A terceira condição apontada pelo Documento de Aparecida é focar a ação cristã na defesa da vida e dos direitos dos mais vulneráveis (DAp 394). O trabalho social resgata a vida humana, defende o planeta, coloca a paróquia em diálogo com setores importantes da sociedade, tais como órgãos de prefeitura, ONGs, instituições seculares e a sociedade em geral. O trabalho mais intenso e organizado com dependentes químicos, alcoólatras, famílias destruídas, moradores de rua, meninas e meninos vítimas de violência, dentre outros, torna-se campo de ação do trabalho social hodierno. Estes espaços carecem de ser iluminados pelo Evangelho. Toda ação paroquial que converge para o social deve estar sempre voltada para o âmbito do Evangelho, o qual sempre aponta para o ser humano. A ação missionária paroquial demanda uma visão mais ampla, voltada para os problemas e para as limitações humanas presentes na realidade da paróquia, a qual existe para evangelizar.

Essas três condições não pretendem criar um método missionário fixo ou fornecer receitas prontas para a missionariedade da paróquia; mas, sim, apontar algumas alternativas que desencadeiem processos de mudança, superando posições fixas e pré-determinadas. O Documento de Aparecida acredita na missionariedade paroquial, desde que a paróquia busque ser uma comunidade de comunidades, que suscite, forme e interaja com os discípulos missionários e atue na sociedade como organismo vivo, não como instituição imóvel, inativa e alheia à realidade social. O Evangelho desautoriza a falta de esperança e a imobilidade da Igreja. Para agir missionariamente, cabe à paróquia vencer o marasmo e assumir as mudanças, tanto em sua estrutura quanto em sua mentalidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

Pe. Gelson Luiz Mikuszka, C.Ss.R
Missionário Redentorista