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Os valores que o dinheiro não compra

Ecl 1,2.2,21-23/Lc 12,13-21    

 

Um homem que estava no meio da multidão disse a Jesus:
– Mestre, mande o meu irmão repartir comigo a herança que o nosso pai nos deixou.
Jesus disse:
– Homem, quem me deu o direito de julgar ou de repartir propriedades entre vocês?
E continuou, dizendo a todos:
– Prestem atenção! Tenham cuidado com todo tipo de avareza porque a verdadeira vida de uma pessoa não depende das coisas que ela tem, mesmo que sejam muitas.
Então Jesus contou a seguinte parábola:
– As terras de um homem rico deram uma grande colheita. Então ele começou a pensar: “Eu não tenho lugar para guardar toda esta colheita. O que é que vou fazer? Ah! Já sei! – disse para si mesmo. – Vou derrubar os meus depósitos de cereais e construir outros maiores ainda. Neles guardarei todas as minhas colheitas junto com tudo o que tenho. Então direi a mim mesmo: ‘Homem feliz! Você tem tudo de bom que precisa para muitos anos. Agora descanse, coma, beba e alegre-se.’ ” Mas Deus lhe disse: “Seu tolo! Esta noite você vai morrer; aí quem ficará com tudo o que você guardou?”
Jesus concluiu:
– Isso é o que acontece com aqueles que juntam riquezas para si mesmos, mas para Deus não são ricos.

 

Podemos ter certa dificuldade para entendermos a primeira leitura, porque o sentido com que usamos a palavra vaidade, em português atual, não é o mesmo sentido etimológico da palavra. Geralmente, quando dizemos que uma pessoa é vaidosa, é porque ela quer se mostrar, se veste bem, quer aparecer bonita. Mas o verdadeiro sentido não é esse. Vaidade tem outra origem e, sem saber disso, não entenderemos as leituras. A palavra vem do latim: vanitas, vanum, que, em português deu vão, um buraco, algum espaço vazio. Portanto, vaidade é uma coisa que não tem consistência – isso no sentido bíblico da palavra.

 

De fato, eu diria que uma única realidade não é vazia, e todas as outras só terão consistência se participarem dela. Guardem bem: a única realidade que tem consistência por ela mesma e, portanto, não é vaidade, é o amor. Todas as demais realidades adquirem consistência se participam do amor: a justiça, a bondade, a verdade. Qualquer realidade despida de amor é apenas vaidade. Quando fingimos que amamos, temos apenas vaidade. Não tem nada a ver se é bonita ou feia, se está bem ou mal vestido, apenas não tem consistência, é vazio. Como Jesus era judeu, toma essa leitura do Antigo Testamento, para responder ao jovem que reclama da partilha feita pelo irmão mais velho.

 

A única realidade
que tem consistência por ela mesma

e, portanto,
não é vaidade,
é o amor

Jesus não poderia se meter numa disputa entre irmãos. Aquilo era pura vaidade, era vazio, pois ali não existia amor. Se aqueles dois irmãos realmente se amassem e quisessem repartir seus bens com justiça e discernimento, então não seria vaidade. Guardem essa lição para as relações com as pessoas, na família, pois só não seremos vaidosos se realmente nos amarmos. Se não houver amor, fatalmente cairemos no vazio. Sobretudo, nas relações afetivas, é importante pensar nisso, pois se formos vaidosos no sentido bíblico, qualquer relação entre nós será vazia e, sendo vazia, certamente não durará muito tempo. Todos nós temos horror ao vácuo, ao vazio, e sempre queremos encher todos os espaços. A vaidade é o mais completo vazio.

 

Jesus continua, tomando o exemplo fantástico daquele homem que vivia numa enorme abundância de bens materiais. Ainda nessa semana, foi notícia um americano que ganhou um prêmio de milhões de dólares. Ele estava exultante, mas eu vi aquilo e pensei: ele não poderá comer aquele dinheiro, quando a fortuna é exagerada, acaba não se podendo fazer nada. Ele terá que se esconder de assaltantes, sequestradores, familiares ambiciosos. Acabará morrendo e deixando tudo para os outros. Perceberam a loucura?

 

Nunca poderemos comprar nada que realmente vale.
O dinheiro só pode comprar vaidades, coisas vazias. É certo que precisamos
delas, mas continuam vazias

Jesus dá o exemplo de um pobre homem que tinha um celeirozinho vagabundo. Imaginem esses milionários que têm uma fortuna gigantesca. É a vaidade no sentido bíblico da palavra. Podem apertar toda a fortuna e não sairá uma gota sequer de amor, uma lágrima de compaixão, um sorriso inocente de uma criança. Não sairá nada que realmente tenha consistência. É bom pensarmos nisso diante de tanta ganância que permeia a nossa sociedade. Nenhuma fortuna é suficiente para comprar um sorriso de uma criança, um gesto sequer de amor. Poderão comprar o corpo de uma mulher, de um garotão, mas nunca o seu amor. É terrível pensar que nunca poderemos comprar nada que realmente vale. O dinheiro só pode comprar vaidades, coisas vazias. É certo que precisamos delas, mas continuam vazias.

 

Eu gostaria que vocês pensassem nisto: que com menos coisas viveremos muito mais felizes. Não há nada mais bonito do que conviver, estar com quem se ama, fazer o que se gosta. Nunca um milhão de dólares poderá nos dar uma alegria, um sorriso, uma presença. E continuamos loucos atrás de coisas que não nos enchem o coração, que é feito apenas para amar. É um princípio básico que deveríamos aprender com as nossas crianças. Elas não olham valores materiais, mas sim a beleza, o carinho, o afeto, a gratuidade, o amar e saber-se amada. Por isso, Jesus disse que elas são o símbolo do reino de Deus.  

 

Pe. João Batista Libanio, SJ (1934-2014)
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)