Você está em:

Os sinos, o menino e o monge

Nutro desde criança uma especial e prazerosa relação com os sinos.
Vivi minha infância e parte da adolescência ouvindo os sinos da Igreja de Nossa Senhora das Graças, na cidade de Paulo Jacinto, nas Alagoas.
 
Escutava-os com o coração, sobretudo quando chamavam para a Santa Missa.
Nossa mãe, ao toque dos mesmos nas noites de domingo, começava a nos lembrar: olhem, a primeira chamada… Era a primeira de três – na última, todos deveríamos sair para a igreja, quase numa pequena procissão!
 
Depois, não apenas os ouvia, como também passei a tocá-los, tanto para as missas, como para os enterros. Havia o costume na cidade de o sino tocar durante o trajeto da casa do defunto até o cemitério.

Gostava quando morria alguém, pois estava garantida pelo menos meia hora para tocá-los!
Gostava, porque no meu imaginário juvenil, o toque dos sinos era símbolo da presença de Deus acompanhando o (a) que morrera, levando-o (a) para o céu!
 
Se não bastasse esta experiência da juventude, deparei-me novamente com os sinos ao ingressar no Mosteiro do Rio. Guardo com viva alegria a execução da sinfonia dos sinos beneditinos chamando os monges para a oração da tarde de sábado – as I Vésperas!

E lá estava eu usando pela primeira vez o hábito para estrear no coro monástico – um sonho alcançado, e para a minha grata surpresa, sonho iniciado pelo toque dos sinos!
No nosso mosteiro os sinos são majestosos. Foram dedicados aos grandes pilares da nossa fé e deles receberam seus nomes: a Cristo-Rei, a Virgem Maria, a São José, a São Bento, a São Pedro e São Paulo e aos Anjos – um belíssimo carrilhão abençoado no dia 25/07/1953.
 

Os sinos, além de nos levar para o mistério e o espiritual, querem também chamar a atenção do mundo para a fragilidade do eixo sobre o qual gira – um mundo  que gira e caminha cada vez mais sem Deus e sem oração

Pela primeira vez em Roma, depois de uma cansativa viagem, ouvi o repicar, distante e solitário, de um único sino. Parecia ouvir a voz de Deus a dizer-me no coração da noite romana que realmente estava eu dormindo na Cidade Eterna.

 

Igualmente em Fátima, antes de chegar pela primeira vez ao Santuário propriamente dito, fui conduzido pelos sinos que tocavam a conhecida canção aos treze de maio…
 

Mas, que são esses nobres senhores, silenciosos e ao mesmo tempo tão falantes?

Eles são normalmente grandes, sonoros, misteriosos, presentes, gostam de ser ouvidos!

São os nossos amigos, os sinos! Têm verdadeira afeição em nos tirar de onde estamos a fim de levar-nos para o sagrado, o mistério, o divino, o sobrenatural.
 
Eles nos despertam para nos colocar na atmosfera de tudo o que alimenta a vida da alma, do espírito, da interioridade. Eles sempre nos chamam do ambiente dos homens para a ficarmos no lugar da morada de Deus!
 
Os sinos, além de nos levar para o mistério e o espiritual, querem também chamar a atenção do mundo para a fragilidade do eixo sobre o qual gira – um mundo (atual) que gira e caminha cada vez mais sem Deus e sem oração– com mais barulho do que som sobrenatural.

Os sinos nos pedem para escutar mesmo quando não queremos ouvir.
Tocam em torno de uma igreja ou de um mosteiro para alertar as pessoas que estão à sua volta de que estamos escutando a Palavra de Deus, de que estamos tentando ouvir com mais clareza o sussurro de Deus na suave brisa da vida.
 

Sempre que escutar a voz dos sinos, ouça a voz de Deus a dizer-lhe: sou eu, não tenha medo do presente, nem do futuro, estarei sempre contigo

Em meio ao barulho do mundo, os sinos repicam e nos falam: escutem a voz de Deus, escutem a voz de Cristo, escutem com o ouvido de quem ama, escutem inclinando o ouvido do coração.
 
A voz dos sinos não é apenas a voz que transmite a presença de Deus, que comunica beleza, que vislumbra promessa de salvação, que revela paz e inocência – sim, os sinos têm um não sei o quê de inocência, candura, delicadeza, ternura.

 

A voz dos sinos é também a voz que nos chama e nos leva a casa de Deus – a igreja – para nela sermos alimentados por Sua Palavra e pelo Corpo e Sangue de seu Filho.
 
Eles, pacientemente, continuam tocando nas catedrais, nos mosteiros, nas igrejas, para nos lembrar de que devemos apenas escutar. Ouvir por eles, com eles e neles a voz de Deus, e assim nos santificar pela oração, a quem eles insistem em nos levar.
 
Paradoxalmente, a voz dos sinos é um clamor ao silêncio, à oração, à quietude, ao mistério, ao divino, ao sagrado, ao sobrenatural, ao que é da alam e do espírito!
 
Aliás – a Santa Missa, a oração, o mistério, o sagrado, o divino, o espiritual, o sobrenatural, o que é da alma e da vida interior – são estes dons que os sinos mais apreciam e diante dos quais eles quererão sempre nos colocar!
 
Sempre que escutar a voz dos sinos, ouça a voz de Deus a dizer-lhe: sou eu, não tenha medo do presente, nem do futuro, estarei sempre contigo!

 
Dom Abade Felipe da Silva   
Mosteiro de São Bento, Rio de Janeiro (RJ)