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O Pão da Vida na Mesa da Palavra

Durante tantos séculos a Palavra de Deus foi relegada a um plano secundário, quando aos fiéis era negada sua escuta e compreensão na liturgia e na vida. Nunca será demais insistir na sua importância na dinâmica da celebração. Observamos que a reforma litúrgica operada pelo Concílio Vaticano II, enfim, encontrou receptividade nas assembleias cristãs, que passaram a se esmerar na proclamação da Palavra durante a celebração dos sacramentos, especialmente a Eucaristia.

 

A Palavra de Deus é a pedra de toque na qual se apoia toda a estrutura litúrgica. Não é legítimo mais afirmar, como no passado, que a liturgia eucarística é a missa “propriamente dita”. As duas mesas – da Palavra e da Eucaristia  – dialogam entre si, são interdependentes. Com o mesmo fervor com que comungamos o pão eucaristizado, da mesma forma devemos acolher o próprio Deus deseja nos comunicar hoje, palavra viva, sempre atual.

 

Portanto, a Palavra de Deus reconquistou o lugar que sempre lhe pertenceu por direito, com o Concílio Vaticano II.  E a  Constituição Dogmática Dei Verbum (DV) não dá margem à dúvida, quando afirma: “A Igreja sempre venerou as divinas Escrituras, da mesma forma como o próprio corpo do Senhor, já que, principalmente na Sagrada Liturgia, sem cessar, toma-se da mesa tanto da Palavra de Deus quanto do Corpo de Cristo, o pão da vida, e o distribui aos fiéis” (DV 21).  Faz-lhe coro a Constituição Sacrosanctum Concilium (SC) ao definir: “Com a finalidade de mais ricamente preparar a mesa da Palavra de Deus para os fiéis, os tesouros bíblicos sejam mais largamente abertos…” (SC 51). E mais adiante: “A missa consta de duas partes: a liturgia da Palavra e a liturgia Eucarística. Estão de tal maneira unidas entre si que constituem um único ato de culto” (SC 56). Sem a proclamação da Palavra para interpretar o rito, ele perde-se em fórmulas e símbolos desarticulados. O Verbo faz-se carne na liturgia. Tomamos o Pão da Vida na mesa da Palavra.

 

A liturgia é a celebração do mistério pascal de Cristo. Ela é toda mistérica e mistagógica. A XII Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, encerrada no dia 26 de outubro de 2008, em Roma, teve como tema “A Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja”. Na homilia da missa de encerramento, afirmou o Papa Bento XVI: “O lugar privilegiado onde ressoa a Palavra de Deus, que edifica a Igreja, como se disse muitas vezes no Sínodo, é, sem dúvida, a liturgia”. Na liturgia, a Palavra ressoa límpida, quando bem proclamada, e atinge o coração da assembleia, que responde pela adesão e pelo compromisso. “Graças a Deus!”; “Glória a vós, Senhor!”. Graças ao Senhor que nos fala. Glória ao Senhor que não se cansa de falar-nos ao ouvido e aumentar a nossa fome de Jesus Cristo, Palavra de Deus feita carne.

 

A homilia, que é parte integrante da liturgia da Palavra, como afirmaram os padres sinodais, faz sempre “ressoar a Bíblia “

A Bíblia torna-se verdadeira Palavra de Deus quando proclamada e ouvida em comunidade, em Igreja. Para nós será sempre o livro sagrado, mas precisamos ter cuidado para não criar identidade entre Bíblia e Palavra de Deus. A Palavra deve ser contextualizada e inculturada. Na liturgia, ela torna-se pão, alimento e oração.

 

Os lecionários, livros litúrgicos que trazem as leituras do dia, oferecem aos cristãos, de forma ordenada, a Palavra de Deus segundo uma organização adequada. E, ainda, permitem aos fiéis escutarem as mesmas leituras, em qualquer assembleia da qual participem. Os lecionários, de onde as leituras devem ser proclamadas, e não de folhetos, trazem uma organização inteligente e lógica da Palavra. A homilia, que é parte integrante da liturgia da Palavra, como afirmaram os padres sinodais, faz sempre “ressoar a Bíblia “. O leitor é simples e competente instrumento. Ele sabe que não lê um texto qualquer, fruto de sua inspiração. No século V, Santo Ambrósio já dizia: “Ouvimo-lo a Ele, quando lemos as palavras divinas”. Poderemos ser mais caprichosos na proclamação da liturgia da Palavra? Chegaremos um dia a entender que a Palavra de Deus não é tanto um texto escrito, mas o próprio Filho que tem palavras de vida eterna?

Pe. Antonio Damásio Rêgo Filho
Pároco da paróquia Santa Teresinha
do Menino Jesus da Santa Face