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A revelação da personalidade do papa Francisco é o melhor que há de ficar deste ano por tantos títulos descartável. É raro que só aos 76 anos uma pessoa seja descoberta pelo mundo. O político em geral constrói aos poucos sua “persona” pública por meio de estratégias biográficas. Dificilmente ocorre uma surpresa total como sucedeu, mais de meio século atrás, com a eleição de João 23, por coincidência também com a mesma idade.

São notáveis as semelhanças entre esses papas, inclusive no impacto universal, ecumênico, muito além das fronteiras do catolicismo e das religiões. Em certo sentido, o acolhimento que tiveram foi às vezes mais entusiasta da parte de não crentes que de certos círculos inquietos da alta hierarquia eclesiástica.

Qual o segredo desses dois velhos padres sem poder ou magnetismo físico, sem o carisma eletrizante dos grandes oradores ou o prestígio intelectual dos gênios e sábios? Três palavras singelas do título de um livro de Francisco resumem esse mistério da simplicidade: amor, serviço, humildade.  Está aí tudo: nenhum marqueteiro, pesquisa de opinião, campanha publicitária. Apenas a imitação de Cristo, se possível literal, como fez Francisco de Assis.
 

 

Mas que ninguém se engane: o Evangelho é “programa de vida radical”, como intitulou seu livro o dominicano frei Mateus Rocha. Tão radical que depois de 2 mil anos de cristianismo formal o ideal permanece inatingido. Tão novo que espanta quando um papa decide, de acordo com o espírito evangélico, não morar em palácios ou convidar moradores de rua para o aniversário. Ao contrário dos governantes, esses homens não podem dar emprego, salário, favores. O que oferecem são palavras e gestos físicos de consolo e ternura para acariciar os que sofrem, renovar a esperança dos que vivem “vida de calado desespero”.

Esperança é o que mais falta no mundo de hoje. Não só no sentido teológico de viver para aquilo que ainda não se vê. Esperar simplesmente que o dia de amanhã será melhor do que hoje, que nossos filhos não viverão pior do que ontem viveram nossos pais.

 

A autêntica esperança não pode ser egoisticamente autocentrada: “É apenas em benefício dos sem esperança que a esperança nos é dada”

O mundo ocidental, sobretudo o europeu, lembra a descrição do fim da civilização antiga, pouco antes da queda de Roma: uma sociedade velha e doente, que perdeu a capacidade de dar às pessoas razões de esperança. Como ouvi em Portugal: “a Europa continua o melhor lugar para morar, mas já não é um lugar para sonhar!”

Não foram somente os cristãos que perceberam isso. Marcuse, que nada tinha de religioso, partiu do problema da perda da esperança para escrever “O Homem Unidimensional”, que teria influência decisiva na revolta de Maio de 1968.

Seu livro termina com citação de outro grande pensador judeu, Walter Benjamin. Como o papa Francisco, Benjamin viu que a autêntica esperança não pode ser egoisticamente autocentrada: “É apenas em benefício dos sem esperança que a esperança nos é dada”.

 

 

Rubens Ricupero
Jurista e diplomata brasileiro Foi ministro da Fazenda
durante a período de implantação do Plano Real.