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O desafio cristão de cuidar do encarcerado

A Pastoral Carcerária pede discernimento. Encontram-se em presídios detentos não julgados que lá estão por omissão, ou por negligência do poder público ou outras causas. Podem ser até totalmente inocentes ou culpados de leve delito. Penam e se pervertem em ambiente degradante. A pastoral detecta tal irregularidade, mas não consegue agilizar solução humana e justa.

Consideremos os criminosos julgados e condenados justa e legalmente. Há dois olhares sobre eles que nos dividem o coração. Lá fora estão famílias que choraram a morte de algum membro assassinado ou que sofreram assalto armado, roubo. Enfim, existem as vítimas dos crimes dos presos. Se o olhar se detém sobre elas, fica difícil ter compaixão, compreensão com o criminoso. E, em alguns casos, os crimes se vestiram de perversidade e estupidez inomináveis que obscurecem o caráter humano do detento. Parecem antes monstros que seres humanos.

A imprensa interessa-se por esse criminoso na maldade e quanto mais espetacular cometeu o crime, tanto mais atrai os olhos da publicidade. Haja vista o recente caso da maratona de Boston. A perseguição ao suspeito transformou a cidade em palco de verdadeiro far West. Quando divulgada a notícia da prisão do segundo suspeito, depois de confronto armado com a polícia e gravemente ferido, fotos mostravam a euforia do povo. Terrível cena! Faz brotar do coração humano os piores instintos animais aparentemente domados.
        
Diferente acontece quando o olhar se volta para o detento já na prisão com quem a Pastoral trabalha. Está um ser humano com triste história. Quantas vezes digo na celebração do batismo, para os pais e padrinhos, da importância de tratarem os filhos e afilhados com carinho e cuidado. E de maneira gráfica lhes repito que o caráter começa a ser formado ainda  naquela idade. Portanto, os desvios que levam ao crime podem ser consequência de maus tratos às crianças, de elas presenciarem atos de violência e desconhecerem o aconchego de família carinhosa e delicada.
 

“Por detrás de muito crime, está o passado sofrido do delinquente. E, infelizmente, a prisão reforça as pulsões doentias”

Por detrás de muito crime, está o passado sofrido, humilhado, violento do delinquente. E, infelizmente, a prisão tem ainda aumentado a marca negativa,  reforçando as pulsões doentias de modo que ao deixarem-na não poucos voltam à prática de crimes ainda piores.

E a família dos criminosos? Esposas, pais ou filhos? Que dor e que terrível trauma de ver o familiar próximo por detrás das grades! Aí de novo arma-se um círculo de influência negativa. Não raro, alimentam-se mutuamente sentimentos perversos. Novo espaço para a Pastoral sanar as dores e as feridas dos dois lados.

A psicologia tem muito a dizer-nos sobre o universo psíquico, familiar e cultural da gestação dos celerados. Sem dúvida, o aumento e a banalização da violência assassina deve-se a fatores culturais que envolvem os indivíduos por todos os lados. Veem, ouvem, presenciam façanhas bárbaras nos noticiários, nos jornalecos de esquina, nos filmes, nos bairros onde moram de tal modo que elas já fazem parte do cotidiano. E o horror do crime desaparece em face da barata vulgarização. A Pastoral Carcerária merece ter um braço midiático na linha da crítica do que aí está e de campanhas de purificação da imaginação popular. 

 

Pe. João Batista Libanio, SJ
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)