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O Catecismo na missão de transmitir a fé

O Catecismo da Igreja Católica é o “texto de referência” da fé da Igreja. É  considerado  documento de relevância para que o povo católico conheça, acredite e viva, na fé católica, tudo o que a Igreja recebeu dos Apóstolos e de Cristo. Reúne, de maneira sintética e organizada, o conjunto de ensinamentos que a Igreja recebeu do Senhor e que, através dos séculos, ela conserva e se empenha em transmitir (I Cor 11,23). Saiba um pouco mais sobre este importante instrumento de evangelização, na entrevista do bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, Dom Wilson Angotti.

 

 

Quais foram as principais motivações que levaram João Paulo II a investir intensamente no Catecismo da Igreja Católica?

A solicitação apresentada pelos bispos que participavam do Sínodo de 1985 foi decisiva para que o Papa João Paulo II iniciasse o processo de elaboração do Catecismo da Igreja Católica. Após a publicação do Diretório Catequético Geral (1971), começaram a surgir Catecismos Nacionais, o primeiro deles publicado na Holanda. No Sínodo, os Bispos participantes verificaram a necessidade de um Catecismo que servisse de referência universal para todo ensinamento que a Igreja recebeu de seu Senhor e que foi incumbida de conservar e proclamar, ensinando a todos (Mt. 28,19-20). Desta maneira, em 1986, o Papa João Paulo II nomeou uma comissão composta de cardeais e bispos que durante seis anos trabalharam na elaboração do Catecismo, recebendo milhares de contribuições de bispos do mundo todo e de suas igrejas, de conferências episcopais e de especialistas na educação da fé, gerando uma obra colegial de toda Igreja.

Qual a relação existente entre o Catecismo da Igreja Católica, desejado pelo Papa João Paulo II, e a chamada ‘primavera da Igreja’ impulsionada por João XXIII, por meio do Concílio Ecumênico Vaticano II?

O Concílio Vaticano II propiciou a chamada “Primavera da Igreja”, pois proporcionou tempos novos de presença dialogal entre a Igreja e o mundo, enfatizando atitudes de serviço e de anúncio, superando tempos de distanciamento e condenações. Primavera também no aspecto de uma Igreja que valorizou o leigo pelo fato de ser participante da missão de Cristo, pelo Batismo que recebeu. Corrigia-se, assim, a excessiva ênfase da dimensão hierárquica, para uma Igreja concebida como Povo de Deus, em que o leigo tem reconhecida sua identidade, dignidade e função. Para que o leigo pudesse assumir sua responsabilidade na Igreja e no mundo, fazia-se necessário que fosse preparado. Nesse sentido, o Concílio não determinou a elaboração de um catecismo, mas sim de um diretório com normas gerais para a formação catequética. Pouco tempo passado, a realidade mostrou a necessidade e utilidade de que o Catecismo cumprisse a sua função em vista de um laicato maduro e bem preparado. Portanto, esse instrumento de formação do laicato está em profunda relação à expectativa de primavera eclesial, gerada pelo Vaticano II.

Que importância teve o Catecismo para que a Igreja aplicasse as intuições do  Concílio?

Após o Concílio de Trento (séc. XVI) foi publicado o chamado Catecismo Tridentino, também conhecido por Catecismo Romano ou de Pio V; após o Concílio Vaticano I (séc. XIX) difundiu-se o Catecismo de Pio X. Na prática, percebemos que nos últimos cinco séculos os catecismos cumprem a função de ‘popularizar’ as reflexões e concepções dos concílios que os precederam. Assim, também, após o Concílio Vaticano II, o Catecismo da Igreja Católica auxilia o Povo de Deus a conhecer e a assimilar as intuições Conciliares. Eles difundem aspectos como: a compreensão que a Igreja tem de si, sua presença e missão no mundo, os membros que a compõem, a função de cada um, a importância da Palavra de Deus e dos Sacramentos na vida dos cristãos, a índole missionária etc. Justamente por fazer conhecer toda essa riqueza, o Papa Bento XVI afirmou que o Catecismo é dos frutos mais importantes do Vaticano II (cf. Porta Fidei, n. 11).

Podemos afirmar que os objetivos de João Paulo II com o Catecismo da Igreja foram alcançados?

A ordem que a Igreja recebeu de seu Senhor é ensinar a todos tudo o que ela mesma recebeu (Mt 20). O Catecismo, considerado em si, como obra que apresenta sintética e sistematicamente o conteúdo da fé, atingiu seu objetivo ao ser publicado. Porém, considerando que ele é um instrumento a serviço da missão da Igreja, e que esta deve conhecer, aprofundar e ensinar o que recebeu do Senhor, podemos dizer que, em relação à sua finalidade, o objetivo do Catecismo vai se concretizando dia a dia, na medida de nosso empenho em realizar nossa missão de anunciar e formar na fé.

De que maneira o Catecismo conserva e apresenta os ensinamentos que a Igreja recebeu e deve transmitir?

O Catecismo reúne, de maneira sintética e organizada, todo o conjunto de ensinamentos que a Igreja recebeu do Senhor e que, através dos séculos, ela conserva e se empenha em transmitir (I Cor 11,23). Esse conteúdo integral de ensinamentos é designado como depósito da fé (1Tm 6,20). O Catecismo, baseando-se na antiga tradição da instrução catecumenal, própria dos primeiros séculos do cristianismo, organiza e apresenta todo esse conteúdo a partir de quatro  grandes partes:

 1ª – As verdades da fé, apresentadas a partir da estrutura trinitária do Credo;

2ª – A salvação de Cristo celebrada pela Igreja, sobretudo em seus Sacramentos; 3ª – O agir do cristão sob a ação do Espírito Santo;

4ª – A vida de oração do cristão. Por meio dessas quatro grandes partes do Catecismo é apresentada toda a verdade que a Igreja crê, celebra, vive e
reza. Toda a verdade, que a Igreja recebeu do Senhor é exposta com sólido fundamento da Palavra de Deus, da Tradição Apostólica e do Magistério eclesial.

De que modo o Catecismo tem servido à educação da fé na Igreja, em nosso País?

O Papa Bento XVI, ao proclamar o Ano da Fé (11/10/2011 a 24/11/2013), por meio da exortação apostólica Porta Fidei (n. 11), dizia que o Catecismo é instrumento indispensável para conhecer sistematicamente os conteúdos da fé. Em muitas dioceses, o Ano da Fé serviu para maior divulgação e motivação e para aprofundar o conhecimento acerca do Catecismo. Motivados também pela Jornada Mundial da Juventude, os jovens demonstraram grande interesse em conhecê-lo melhor e, com renovada esperança, vemos grupos que se dedicam a esse aprofundamento. Inúmeras paróquias, servindo-se do Catecismo, realizam cursos de formação destinados ao laicato. Considerando que o Catecismo tem em vista favorecer o conhecimento dos conteúdos da fé, podemos dizer que, através dele, Cristo é transmitido. Portanto, não é algo que se encerra no âmbito teórico. É profundamente direcionado à dimensão vivencial, pois se trata de encontro com o Senhor. Aqui está a base de uma vida cristã que se deseja esclarecida e consistente. Favorecer isso só pode ser promissor para a Igreja que aspira contar com o protagonismo de um laicato maduro e preparado.