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O anúncio da Palavra e a mídia

Nesta semana, precisamente no dia 5 de maio, comemoramos o dia das comunicações. Por isso, trazemos aqui uma reflexão sobre anúncio e mídia, pois comunicar é, também, informar, formar e cultivar a espiritualidade. Os cristãos sempre são desafiados a dar razão da própria fé, uma vez que toda religião se insere dentro de uma forma cultural.

 

Na atual sociedade da informação, em que as distâncias são encurtadas pela comunicação rápida, um dos maiores desafios é a presença na mídia. Ainda ecoa em meus ouvidos uma célebre frase de dom Luciano Mendes de Almeida: “onde há povo, há razão de ser pastor”. Desse modo, se há gente na TV, no rádio, na Internet, aí também é preciso anunciar a alegria do Evangelho, na perspectiva de uma Igreja em saída, como diz o Papa Francisco.

Uma primeira observação que fazemos diz respeito ao modo como se devem compreender os vários espaços da mídia. Há quem diga que a tecnologia revolucionou a comunicação e a vida como um todo. E isto é verdade. Porém, não se trata apenas de um suporte tecnológico, da internet, mas de um processo que vai muito além de uma questão técnica. O processo de virtualização potencializa todas as realidades no mundo contemporâneo. Segundo o filósofo Pierre Levy, a virtualização é um dos principais vetores da criação da realidade. Portanto, trata-se de um processo multifacetado que gera mobilidade, informação, relações, proximidade e a construção de mundos multirreferenciais. É processo antropológico acima de tudo, pois diz respeito ao modo como habitamos no mundo. Desvela-se então uma nova perspectiva de ser humano, a ponto de podermos dizer que o processo de virtualização e midiatização constitui, essencialmente, o ethos contemporâneo. A morada espiritual do homem de hoje.
 

A condição humana não dá saltos, nem tem
a mesma velocidade
dos bits.
Corremos o risco de criar um hiato entre
ser e poder ser,
entre discurso e
testemunho

Diante desse cenário, não se pode fugir, muito menos pensar que a tecnologia é uma aberração. Como também é sinal de sabedoria e prudência não romantizar todo esse processo de virtualização. Se há potencialidades positivas que fazem a vida moderna fluir, há também a potencialização do joio. E como! O fato é que não estamos diante de uma questão instrumental, mas antropológica e ética. Por isso, não se pode fugir. É para dar razão à nossa fé que a Igreja é convocada a anunciar Jesus Cristo no coração desse processo de virtualização. E não o fazemos por modismo ou como se estivéssemos do lado de fora. Habitamos também esse mundo. Compartilhamos desse mesmo mundo. A espiritualidade da Igreja é e deve ser sempre encarnada na história em que vivemos, ou melhor, no chão da vida mesmo. Ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5, 13-14), dentro do mundo, abrindo caminhos para o sentido da vida, para o amor autêntico e para a salvação.

Desse modo, é preciso lembrar que a missão é a razão de ser mesmo da Igreja. Ser é comunicar. Se a Igreja é sacramento de salvação, tal realidade se comunica em todos os tempos e espaços humanos. O anúncio brota do coração da comunidade de fé. No entanto, é preciso salientar que há enormes desafios na atualidade ou mesmo diante das virtualidades. O primeiro é a velocidade das informações e encurtamento dos espaços, ou a confluência de horizontes num mesmo instante vivido. Ora, do ponto de vista antropológico, a condição humana não dá saltos, nem tem a mesma velocidade dos bits. Corremos o risco de criar um hiato entre ser e poder ser, entre discurso e testemunho, gerando uma espiritualidade adocicada, centralizada no eu emocional e do espetáculo, numa espécie de esquizofrenia autodestrutiva. Mas, para além da velocidade que desafia estão novas possibilidades de anúncio e testemunho. É preciso abraçar o ethos virtual e midiático como possibilidade de ser fermento. E aqui se distingue anúncio de propaganda. Enquanto esta visa ao consumo, à venda de um produto; aquele acontece, sobretudo, pelo testemunho vivido. Por fim, é preciso anunciar sempre a alegria que brota do Evangelho.

 

Pe. Márcio Paiva
doutor em Filosofia pela PontifÍcia Universidade Gregoriana
 diretor do Instituto de Ciências Humanas da PUC Minas