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No que estou me tornando?


 

… Ao amanhecer, chamou os discípulos
e escolheu doze entre eles,
aos quais deu o nome de apóstolos:
Simão, seu irmão André…
e  Judas(Lc 6,12-19) Iscariotes, que se tornou traidor.

 

Lucas relata o chamado dos doze apóstolos dentre o grupo dos 72 discípulos. E ao falar em Judas, Lucas acrescenta o seguinte comentário: “Aquele que se tornou traidor” (v.16)

Paro aqui; mais precisamente na expressão “se tornou”.
Fico pensando no propósito do chamado.
Jesus se preparou em oração para escolher os Doze.

E Marcos, quando relata esse fato explicita ainda mais a finalidade do convite de Jesus: “Chamou os que ele desejava escolher… (os que ele quis) constituiu o grupo dos Doze para que estivessem com ele e para enviá-los a pregar…” (Mc 3,13ss).

Diante da constatação de que Judas se tornou traidor, sinto-me interpelada a lançar-me um sério questionamento: No que tenho me tornado? No que estou me tornando? Tenho me empenhado em me tornar discípula ou estou me tornando algo que não há nada de próximo ou parecido com propósito inicial que Jesus tinha ao me chamar e continua tendo até hoje? Ou, mesmo tornando-me discípula, que tipo de discípula?

São Paulo nos convida a viver de tal forma a nos configurarmos com a pessoa de Jesus, assim como ele, que foi capaz de dizer: “Já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim”
O discipulado é para nos tornarmos mais parecidos com Jesus

Poderia ocupar o meu tempo tentando responder à pergunta: “Por que Judas se tornou traidor?” Mas, com certeza, se eu optar por essa postura correrei o risco de ficar dando voltas inutilmente, sem chegar a lugar algum. Mas, posso optar por outro movimento. Olhar para aquilo em que Judas se tornou deve me convidar a lançar o foco sobre mim mesma e perce-ber o que está acontecendo com a minha vida. Em relação às perguntas que dirijo a mim mesma tenho a certeza de que será mais possível encontrar-me com as respostas.

São Paulo nos convida a viver de tal forma a nos configurarmos com a pessoa de Jesus, assim como ele, que foi capaz de dizer: “Já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim”. O discipulado é para nos tornarmos mais parecidos com Jesus. E essa semelhança se torna visível pelas nossas atitudes, por nossos atos, nossas opções concretas, nossas posturas em relação às realidades mais simples que se apresentam a nós em nosso cotidiano.

Olho para Judas – é impossível não olhar! – e vejo no que ele se tornou. Olho para mim e vejo minhas fragilidades, meus limites e reconheço que não sou melhor do que ele. Constato que existem em mim realidades que podem ser empecilhos para que eu me torne a discípula que o Mestre deseja. Mas, ao mesmo tempo olho também para Pedro, André, João, Tiago… Perpétua, Felicidade, Teresa de Ávila, João da Cruz, Agostinho, Lourenço, Rafael Delle Nocche, Angélica Parisi, Maria Macchina, Valentina, Maria Clara, Francisco… e percebo no que eles e elas se tornaram e no que ainda têm se tornado. E isso me anima e entusiasma! Percebo que é possível, a partir de nossos limites e auxiliados pela Graça, nos tornarmos discípulas e discípulos fiéis ao Projeto original de Jesus sobre nós. E isso me enche de alegria, de esperança e desejo de continuar seguindo Jesus como discípula, “até que Ele venha” entre as luzes e sombras do caminho.

Quero me dispor como o Servo de Javé apresentado em Isaías: “O Senhor Javé me deu a capacidade de falar como discípulo… Cada manhã ele faz meus ouvidos ficarem atentos para que eu possa ouvir como discípulo” (Is 50,4). O discípulo não nasce pronto. Ele se faz, se constrói, colocando-se dia após dia no caminho, com Jesus. A expressão “Cada manhã” nos remete à ideia da continuidade e da gradualidade do processo.

Jesus continua hoje nos convocando ao seu seguimento como discípulos e discípulas
Sejamos nós capazes de dar a nossa resposta de manhã a manhã

A dimensão processual do seguimento torna para nós possível e factível nos tornarmos dis-cípulos: Jesus sabe que não estamos prontos e, por isso mesmo, nos acompanha terna e pacientemente, com um cuidado que só ele sabe ter, assim como acompanhou o processo de formação dos “Doze”. Sabe de nossos limites e possibilidades, sabe que o tesouro que nos confia, nós o “trazemos em frágeis vasos de barro” (2Cor 4,7). Mas nos acompanha com confiança e esperança.

A graça de Deus nos sustenta e ela nos basta (2Cor 12,9ss), mas há uma parcela de esforço que nos diz respeito: para que eu me torne discípula, numa fiel continuidade “de manhã em manhã” será preciso dispor os ouvidos à atenção. Isso requer constante e progressiva atitu-de de abertura, de um querer dinâmico, de um desejo decidido. Deus quer realizar em nós todo o seu projeto de amor. Mas não fará nada sem a nossa adesão, sem um reverente res-peito à nossa liberdade. Tal atenção é atitude natural daquela pessoa a quem não basta simplesmente passar pela vida de forma distraída, mas que ao invés, quer viver com intensi-dade e presença, com a consciência desperta, atenta, ligada, disposta a não perder nenhum fio, a fim de que o tecido de sua existência possa ser o mais possível, harmonioso e belo.

O discipulado vai assim se constituindo, a partir da capacidade de perceber as lições que o Mestre vai nos oferecendo: seja na escuta atenta à sua Palavra dirigida a nós na Sagrada Escritura, mas ao mesmo tempo nos variados acontecimentos da história pessoal e comuni-tária; seja na participação e celebração das ações litúrgicas e sacramentais, particularmente na Eucaristia, nas relações comunitárias e em tantas ocasiões que a criatividade divina dispõe para nós.

Assim, nessa bonita e dinâmica parceria com o Mestre Jesus, o discípulo vai sendo formado, configurando-se a Ele de “manhã em manhã”, dia após dia, “assumindo os seus  mesmos sentimentos” (Fil 2,5), relativizando, por causa d’Ele, todas as coisas (Fl 3,7s), consciente de que está a caminho e que a sua construção só terminará no momento do abraço definitivo, no face a face que se dará na eternidade. Até lá, o que fazer? “Avançar para o que está na frente. Lançar-se em direção à meta…” (Fil 3,13,s) com serenidade e esperança.

Jesus continua hoje nos convocando ao seu seguimento como discípulos e discípulas.
Sejamos nós capazes de dar a nossa resposta de manhã a manhã!

Que Maria, a primeira e mais fiel discípula, que tão bem soube “ouvir e colocar em prática a Palavra de Deus”, interceda por nós em nosso caminhar cotidiano.

Assim seja!

 

Ir. Andréa dos Santos Lourenço
Irmãs Discípulas de Jesus Eucarístico