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Missão na Amazônia

“Sou missionário, sou povo de Deus. Sou índio, caboclo, mestiço fazendo da vida missão; aqui nesta grande tapera da Igreja Amazônica sou mensageiro de um Deus que é irmão” (Manoel Nerys).

 

 

A missionariedade é um dos pilares que sustentam a Vida Religiosa Consagrada. Neste ano, em especial, ela é convocada pelo Papa Francisco, como a Igreja, a se colocar cada vez mais em saída, a ir ao encontro das pessoas, a sentir o “cheiro do povo”.

Essa missionariedade tem no envio uma de suas primícias; é sentir-se confirmado/a, enviado/a a uma comunidade em nome da Congregação, sabendo que somos precedidos/as pelo próprio Cristo.  Colocando-me nessa disposição, em 2013 fui enviada a Belém (PA) onde a comunidade (somos três Irmãs) apoia a missão da comunidade intercongregacional de São Miguel do Pracuúba (Marajó). Sinto-me feliz em estar aqui e viver a simplicidade, a vida de oração, o Carisma de Providência, a missão com as Irmãs e com o povo.  

Como missionárias em terras amazônicas, nos estados do Pará e Roraima, nós, Irmãs da Providência de Gap, fomos descobrindo o rosto da espiritualidade amazônica através da diversidade de expressões, do acolhimento das experiências de outros missionários e missionárias, conhecendo aos poucos este chão sagrado através de documentos dos Bispos do Regional Norte 2, IPAR (Instituto de Pastoral Regional), observando, visitando, deixando cada partilha fecundar nossa oração, nossa prática missionária. As visitas se tornaram o meio fundamental para nos aproximarmos da realidade das famílias, acolher seus problemas e a maneira como procuram solucioná-los, escutar suas dores e seus sonhos.

Percebemos que tudo isso nos aproxima e nos compromete. A oração pessoal e comunitária inserida na realidade nos envolve na dinâmica da vida em que constantemente somos interpeladas em nossa prática, convocadas a ser Sentinelas da Providência, sinais de esperança, transformação, conscientização e apoio. A oração vinculada à vida, o estilo comunitário simples de viver e a inserção no meio mais pobre valorizando as lideranças locais, são os elementos que fortificam nossa vocação e sustentam a nossa missão. São como o sopro dos ventos advindos das localidades ribeirinhas e que nos fazem memória das palavras do Papa Paulo VI: “Cristo aponta para a Amazônia”! 

 

Viver a vida
religiosa consagrada neste chão
é renovar a
alegria de uma vida entregue e partilhada, acreditando que
o Reino que já se apresenta vai aos poucos se
tornando mais visível

Esse é um apelo urgente que exige de cada missionário disposição não só para partir em missão, mas antes, “tirar as sandálias dos pés” para conhecer e compreender a formação do povo, fruto do transcorrer do tempo, de adaptações, dos fenômenos culturais etc. Nessa região, a presença da Igreja aconteceu dentro de um processo histórico, num contexto sócio-econômico-político-cultural do período colonial do império português. Atualmente, a Igreja em território amazônico apresenta acentuada variedade de tradições religiosas. Elas se originam dos grandes projetos e das migrações, sobretudo das matrizes indígena, lusitana e africana, expressas desde os ornamentos das antigas igrejas até às pedrarias que recobrem o manto da Virgem de Nazaré, Rainha da Amazônia, cuja manifestação de fé e devoção tem seu ápice no Círio de Nazaré.  

Aqui somos desafiadas pela multiplicidade de expressões do pentecostalismo e neo pentecostalismo, bem como por uma volta ao conservadorismo que dificultam o compromisso com uma igreja encarnada na realidade. Ao mesmo tempo somos convidadas a lançar um olhar sobre a história e acolhê-la com respeito, bem como anunciar a Boa Nova do evangelho com coragem, ousando falar, denunciar, acreditando que o Senhor caminha conoso (At 18, 9): eis a prece diária em nossas orações.

Lançar um olhar crítico e de compaixão para perceber que nas periferias o desafio de viver a fé convive com a escalada da violência e da marginalização, com graves problemas sociais como a falta de condições básicas de saúde, habitação e segurança. Tudo isso dentro de uma realidade que carrega a cicatriz da prática da grilagem, da extração irregular de madeira e minério, da falta de demarcação das terras indígenas, agronegócio, ameaças ao meio ambiente, doenças tropicais, subemprego, violência contra líderes comunitários e sindicalistas. Somam-se ainda a falta de saneamento básico, sistema educacional deficiente, êxodo rural, inchaço urbano.

Neste contexto, a vida religiosa consagrada é chamada a viver a sua dimensão  mística-profética que se expressa no amor, no serviço, no resgate da dignidade humana e na valorização da natureza, das culturas e suas tradições. É uma empreitada contra o equivocado conceito de progresso, cujo foco no crescimento econômico deixa à margem a promoção de políticas públicas, a justiça e o bem comum.

Em consequência desse abandono políticossocial, encontramos a maioria dos jovens de Belém e Marajó dispersos, desacreditados, sem perspectiva de realização profissional e convivendo de perto com o mundo da drogadição. Durante esses meus dois anos na região, comunguei da dor de muitas famílias que viram seus filhos, ainda jovens, serem assassinados por dívidas de tráfico, nos “acertos de contas”. Nosso compromisso como Irmãs da Providência é ser presença de consolo, de esperança, mas também questionadora desta realidade cruel. Procuramos animar pequenas inciativas de transformação: apoio a grupo de teatro, grupos de jovens, encontros comunitários e formação bíblica.

Lembremos o apelo que nos faz o Papa Francisco: “Ide, sem medo, para servir”. E qual é o melhor instrumento para evangelizar os jovens? Outro jovem! Por isso, aqui segue um convite: considere fazer da sua vida um instrumento para que Deus fale ao coração de outros jovens; há tempo ainda para pensar e, certamente, para dar uma resposta.

Como religiosos, essa resposta atende à convocação a um compromisso profético como testemunhas diante dos desafios sociais, políticos, religiosos, eclesiais etc. É um constante reafirmar de nossa identidade como discípulos da Palavra, promotores do diálogo e defensores da vida.

 Ao mesmo tempo, nos tornamos aprendizes, pois o povo nos ensina com sua fé, com sua obstinada esperança e, sobretudo, nos inspira a retomar sempre o fundamento de nossa Consagração Religiosa: Jesus Cristo. Viver a vida religiosa consagrada neste chão é renovar a alegria de uma vida entregue e partilhada, acreditando que o Reino que já se apresenta vai aos poucos se tornando mais visível.

 

Irmã Ellen Carniélo Gasparelo
Irmãs da Providência de Gap – Belém (PA)