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É lugar complexo. Complicado mesmo. Seus habitantes tem orgulho disso. Capricham na pose. Exageram, afirmando que é diferente de tudo mais em todos os aspectos. Ali, se crê que as leis que governam os outros, lá não se aplicam. Nada funciona da maneira como funciona lá, acredita-se.

Independente da crença sem fundamento na sua singularidade, as sequências de eventos não deixam de ser intrigantes. Parece que neste lugar o pensamento se especializou em ignorar e negar a realidade. E as pessoas se acostumaram a ser pela realidade atropeladas.

Para uma população que se orgulha de sua singularidade, é um mistério a dificuldade coletiva quando se trata de aprender com as experiências do passado, recente ou não. Consciência aparentemente cativa de ideias fixas e problemas repetitivos. Capazes de concordar com a origem dos problemas sem, entretanto tratar de resolvê-los permanentemente.

Para tudo tem uma explicação. E um culpado. Normalmente a explicação justifica o estado de coisas sem resolvê-lo. E o culpado sempre é conhecido. É sempre o outro (ou, os outros), de preferencia, os estrangeiros.
Em tempos de (real ou ilusória) fartura, os méritos são generosamente atribuídos à maneira singular, única e competente com que os problemas foram (ou pelo menos se acredita que foram) resolvidos. Mas em face do fracasso, a conjuntura e os estrangeiros são os suspeitos usuais. Maneira verdadeiramente singular de ver as coisas.

É lugar complexo. Onde por muitos anos, eleitores clamam, sem ser atendidos, por qualquer candidato que os represente. Onde a pujança e tamanho das multidões pedindo mudanças contrastam com a ausência de lideres e lideranças capazes e dispostos atraduzir  demandas populares em ações e programas políticos. É lugar comandado por pessoas que, por não acreditarem em nada, dizem qualquer coisa.

É tudo muito estranho. Mas não é singular nem diferente. Exceto, talvez, pela disposição de conviver com os mesmos problemas, reclamar deles diuturnamente, sem, entretanto, resolve-los. E de ter o noticiário estrelado e contaminado por personagens sem qualquer vergonha, vivendo em um mundo em que as regras não funcionam.

 

Elton Simões
Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV);
MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria)