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Liturgia, organismo vivo da Igreja

Oração Eucarística

Muitas polêmicas seriam evitadas se compreendêssemos a liturgia da Igreja. Sua natureza, enquanto elemento da cultura e permeada pelo Espírito do Ressuscitado, responde a algo que está longe de ser estático ou fixado pelas normas do Direito. Não que estas não tenham importância, pelo contrário. Elas existem para coordenar, disciplinar e reger uma vida que respira nas celebrações, fazendo-as evoluir continuamente na direção do mistério de Cristo, compreendendo evolução como movimento, mudança, transformação sem qualquer juízo de valor. Evolução aqui não quer dizer necessariamente progressão. A liturgia, como organismo vivo da Igreja, evolui continuamente.

 Um exemplo bem próximo de nós é a oração da paz, antes da saudação entre os fiéis. A oração não figura entre as mais importantes da missa. Alguns estudiosos a consideram como um rito acessório que repete aquilo que já foi evocado na saudação presidencial, a paz do Senhor, ou no Cordeiro de Deus, em sua última invocação litânica. Estes sim são dois ritos indiscutivelmente essenciais. O primeiro presente na tradição mais antiga da Igreja e o outro, um canto associado à fração do pão, rito que remonta ao próprio Cristo e aos apóstolos. Mas a discussão aqui não presume cancelar ritos, não se enganem. Isso é tarefa do Magistério Universal. Continuemos a rezar a oração da paz… A intenção é apenas mostrar como se comporta a liturgia.

 

A oração eucarística, eminentemente presidencial, está entre os ritos essenciais da missa, remontando ao próprio Cristo: “ele deu graças”. Ao presidente foi dada a voz, para que pronuncie em nome de todos: “Receba o Senhor, por tuas mãos, este sacrifício…”

O missal reza em suas rubricas ser ela uma oração proferida pelo presidente. E está certo. Contudo, numa ou noutra comunidade, a celebração se comporta de outra maneira, mais ou menos assim: o padre reza: “Senhor Jesus Cristo, que dissestes aos vossos apóstolos, eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz…”, e o provo continua: “não olheis os nossos pecados, mas a fé…”, até o final. Quando mudou? Por que mudou? Dificilmente saberemos… mas a mudança pegou e é assaz difícil fazer esse hábito retroceder à norma do missal. Quê fazer? Interromper a celebração e explicar à comunidade que essa parte é do padre, ao ponto de virar uma catequese inoportuna dentro da celebração? Acelerar na oração aumentando o volume da voz ao microfone para não dar oportunidade ao provo de rezar junto? Cantar a oração dando-lhe um valor excessivo? Os resultados são parcos e, como um balão submerso, em algum momento esse comportamento virá à tona…

Diferente é o que acontece com a doxologia ao final da oração eucarística, o “Por Cristo, com Cristo e em Cristo…”. O mesmo comportamento se verifica aqui e acolá: o povo rezando junto. Aqui vale uma intervenção pastoral, pois a oração eucarística, eminentemente presidencial, está entre os ritos essenciais da missa, remontando ao próprio Cristo: “ele deu graças”. Ao presidente foi dada a voz, para que pronuncie em nome de todos: “Receba o Senhor, por tuas mãos, este sacrifício…”. Não há razão para que o mesmo povo que concedeu voz ao ministro, a retome antes da hora, rezando a doxologia. Como fazer? De novo uma catequese inoportuna, interrompendo a mais nobre oração da Igreja? Acelerar a prece justamente na sua conclusão, perdendo a unção daquilo que se pronuncia? Resta o canto para salvar: aqui sim caberia uma intervenção de caráter litúrgico, valorizando aquilo que deve ser valorizado por meio de uma boa melodia e incentivando o povo a cantar o “Amém” final com beleza e entusiasmo. Quem sabe, depois de reestabelecer um hábito correto, se possa, oportunamente, reforçá-lo na homilia, a partir da própria palavra meditada, tornando claro com uma boa mistagogia, o sentido e a execução deste rito.

Diziam alguns estudiosos de liturgia que ela cresce como cabelo e unha… de vez em quando precisa de uns aparos. É verdade. Mas para os problemas litúrgicos, intervenções litúrgicas. Não arranque as pontas dos dedos no corte descuidado das unhas, nem prejudique a face (da Igreja) com uma intervenção descuidada, despindo-a da beleza de sua manifestação primeira: a celebração do mistério de Cristo.

 

Pe Danilo César dos Santos Lima
Liturgista