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Quantas vezes escutamos que estamos vivendo em um mundo de redes? Redes de conhecimento, redes de comunicação, rede financeira, redes sociais etc., que fazem parte do cotidiano de todo ser humano, por mais que ele seja protagonista ou simples observador dessa gama de conexões. Porém será que essas redes realmente são conexões que facilitam a nossa vida, ou elas nos colocam em um mundo paralelo e nos capturam para além da nossa experiência fundamental do homem que é a relação corporal com o mundo?

Se pensarmos no sentido primitivo que a palavra rede tem para nós, encontraremos várias correlações um tanto quanto interessantes. Lembra-se das armadilhas para capturar animais, das redes de pescador, das redes de borboleta e de muitas outras?  Essas redes são boas para os capturados? Ou seguem aos propósitos dos caçadores?

Quando pensamos em nossas modernas redes, raramente associamos a estas antigas, pois dizemos que elas nos ligam com diversas pessoas e que através de ramificações somos ligadas a outras e mais outras, configurando o que se assemelha a estrutura da rede: todos correlacionados. Porém essa correlação é distante, virtual, perigosa.

 

Aprisionados em um mundo de aparências, perdemos a essência das relações humanas Instrumentalizando tudo o que é essencial e que nos torna capazes de amar

Você já ouviu falar de uma rede que não fosse perigosa? Que não precisasse de técnicas para usá-la? Pois é… E quem maneja estas nossas modernas redes? A que propósito elas servem? Será que não estamos presos e ainda enganados e nos gloriando de tamanha e eficaz ferramenta?

É nessa perspectiva que devemos encarar as “redes modernas”. Fomos aprisionados em um mundo de aparências, perdemos a essência de nossas relações humanas e estamos instrumentalizando tudo o que é essencial e que nos torna capazes de amar. Estamos cada vez mais nos transformando em instrumentos e em nome de uma “individualidade induzida” estamos criando uma sociedade sem valores e cultura própria, que simplesmente segue os caminhos apontados por estes lançadores de rede.

Por isso precisamos de uma espiritualidade – entendida no sentido mais amplo possível – que volte o nosso olhar para as pessoas. Precisamos enxergar as pessoas ao nosso redor. Precisamos cuidar uns dos outros, dedicar tempo às amizades, à família, aos que estão distantes, e aos desconhecidos. É necessário voltar nosso olhar para os excluídos e perceber que são tão importantes quanto nós.

A sociedade precisa de uma mudança radical que só pode ser desencadeada pela mudança radical de cada indivíduo. Em tempos de protestos contra a corrupção dos políticos nós nos esquecemos de protestar contra a nossa própria corrupção humana. Somos hipócritas de pedir mudanças quando nós mesmos estamos acomodados e não decidimos mudar.

É necessário que haja a morte para que a ressurreição aconteça, porém decidimos cambalear, vegetar, agir como zumbis e não aceitamos a morte. É a experiência da crise que impulsiona a mudança. É a experiência da morte que valoriza a vida. E estamos em um mundo onde o fracasso já não tem mais espaço e valoriza-se muito mais as mentiras que nos sustentam em estado de semivida do que o reconhecimento do erro e a perspectiva de um novo começo.

Estamos presos nas “redes modernas” e não nos preocupamos nem um pouco em sair. Deixamos de ser pescadores de homens que constroem relações para ser um cardume com uma relação social já pré-estabelecida. Deixamos de levar a vida e passamos a deixar a vida nos levar.

Então é necessário coragem para olhar além da rede, mas isso não é uma tarefa impossível. Apesar da rede ser extensa e forte ela ainda é repleta de espaços vazios e frágeis. Precisamos assumir novamente o sentido de sermos humanos e transformarmos as nossas “relações” em verdadeiros relacionamentos. Afinal, você não está cansado de ser oprimido por estas “redes modernas”?

 

Daniel Couto
Bacharelando em Filosofia (UFMG)