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Jejum, atenção a si mesmo, a Deus e ao outro

Em tempos de idolatria ao corpo, de muitas dietas para alcançar a boa forma, o jejum pode ser entendido, em favor de uma má compreensão de sua prática, como uma maneira cômoda de realizar duas necessidades em uma: ficar bem fisicamente e, claro, resolver problemas espirituais. Entretanto, não é esse o objetivo do jejum quaresmal. Também não corresponde ao jejum uma greve de fome, mesmo com toda a nobreza do gesto e à causa que esteja ligado.

O jejum, na sua forma mais tradicional, enquanto privação voluntária de comida durante algum tempo, está presente nas nossas origens religiosas mais remotas. Em geral, era praticado num sentido penitencial ou preparatório. Na liturgia da palavra, logo no início da Quaresma, somos introduzidos nessas duas facetas. Com o texto do profeta Joel (Jl 2, 12-18) somos convocados à penitência. Já o Primeiro Domingo da Quaresma (não importa se seja ano A, B e C) fornece a reflexão sobre o aspecto preparatório. Como Moisés diante de Deus no monte (Ex 24, 18) e Elias no deserto (I Rs 19, 8) caminhando para o Horeb, em direção ao Senhor, Jesus vence os empecilhos à sua missão e se volta à plena vontade Pai.

Atenção a si mesmo

Na forma penitencial ou preparatória, o Jejum não se separa da oração. Não é outro exercício a mais na caminhada da Quaresma. Como diz Segundo Galileia, o jejum “é uma forma de oração pela qual nos dispomos à misericórdia de Deus” (A sabedoria do deserto. Atualidade dos Padres do Deserto na espiritualidade contemporânea. Coleção oração dos pobres. São Paulo: Edições Paulinas, 1986, pp. 58). Na Didaqué, um dos primeiros catecismos dos cristãos, no número VIII, jejum e oração vêm juntos na orientação aos cristãos, indicando essa relação. O jejum, sem cair na piedade vazia, em conexão harmoniosa com a oração, é uma maneira de cuidado consigo mesmo, de atenção a si próprio. O jejum põe o próprio corpo desde suas condições elementares básicas, como no caso da subsistência, em atitude de sentido, de vigília. Os efeitos desse exercício quaresmal são visados como via para o ser humano atingir a totalidade de sua vida na busca por Deus.

Atenção a si para tocar a vida toda. Para nada ficar de fora da vontade de mudança e preparação para a vida nova. No jejum, o corpo se relaciona com o Pai não só nas palavras, nos gestos. Dialoga com Ele a partir do que lhe é vital. O corpo reza, se oferta, abre espaço para receber o alimento imperecível da presença de Deus. Como diz Jesus, em resposta ao tentador, “não só de pão vive o homem, mas de toda Palavra que sai da boca de Deus!” (Mt 4, 4).

Atenção a Deus

Com o jejum, a oração atravessa o corpo rumo a Deus e atinge o coração na sua intimidade, gerando compaixão por quem sofre

O Jejum se apresenta como oração envolvente da vida e atenção a Deus pela renúncia do passageiro e adesão ao eterno. Faz lembrar, de forma especial, que a vida humana se orienta para o essencial, que a existência de nenhuma pessoa consiste em devorar os bens da vida. Estabelece por esse exercício nítida hierarquia, na qual Deus vem antes de tudo. Liberta a pessoa de tudo que passa para abraçar, ser desposada pelo grande bem da vida, o próprio Senhor. Desta forma, a pessoa ingressa num estado de espírito pelo qual sente o rompimento com a normalidade de dar rápida satisfação à subsistência, e procura tomar consciência desta necessidade sem cair na mera constatação do que falta, para ir adiante na direção da compreensão de si como ser que não se basta. Que precisa de algo para permanecer vivo, a ponto de se questionar sobre a realidade transitória da vida diante da possibilidade de ser assumido por um Deus capaz de suprir, por sua presença, a cada ser humano com o que realmente alimenta a vida.

Pode-se dizer que o jejum expõe claramente para a humanidade seu rosto como em um espelho. O rosto diz que somos necessitados. Que é preciso nos alimentar. Contudo, necessitamos de algo superior ao pão. Carecemos de sentido para o caminho. Não basta satisfazer necessidades. Queremos caminhar com o coração quente todos os dias. O vazio da fome revela vazios não percebidos, como o vazio de Deus. Às vezes o coração está vazio e frio, distante da realização pessoal e da plenitude; chega a hora de se por diante do pão que é Deus.

Atenção ao outro

Jejum é como ponte. Pode também ser visto como um eixo. No nosso corpo que ora pelo jejum, nossa atenção aos valores que carregamos, ao que deve ser renunciado para abrirmos um caminho para Deus em nossa vida, nos leva ao Pai e também ao nosso semelhante. Jejum que não tem lugar para o outro é vazio, é ritual que toma distância de suas finalidades essenciais de ser diálogo com Deus e nossos irmãos. Em tom profético será esta a grande reclamação do Isaias (Is 58). Na ótica do profeta, toda prática espiritual e ritual perde seu valor perante o maltrato, o descuido, e a opressão dos pobres, das pessoas.

A prática ascética do jejum conduz a três comunhões, como se vê no percurso aqui feito. Comunhão consigo, com Deus e com o outro. É oração de desprendimento. Não é um ato isolado da vida de alguém em relação às suas opções, estilos de vida e caminho. Por ser, penitencial, tem sentido como proposta de arrependimento e conversão. Com o jejum, a oração atravessa o corpo rumo a Deus e atinge o coração na sua intimidade, gerando compaixão por quem sofre. Assim, essa prática quaresmal está em profunda relação com a esmola (caridade/ outro) e a oração (Deus), por arar a terra do nosso corpo tornando-o disponível para receber a graça do Senhor.

 

Pe. Magno Marciete do Nascimento Oliveira
membro da comissão Arquidiocesana de Catequese de BH