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Jeitinho brasileiro de ser

Certamente, todos já ouviram essa expressão pitoresca em algum momento, geralmente utilizada para justificar a “malandragem e a esperteza” de alguns compatriotas que não medem esforços para em tudo tirar vantagem.

Particularmente, prefiro entender esse “jeitinho brasileiro” de outra forma, enfatizando a determinação, a coragem e a capacidade refinada de superar as dificuldades do dia-a-dia, traços que também marcam o cotidiano desse povo. Mas, infelizmente, temos que admitir que cada vez mais as boas intenções são subvertidas e dão lugar a uma sagacidade que nos envergonha.

Aqui não faltam leis, regras e punições para moldar a sociedade. Não padecemos da falta desse aparato legal. O que está cada vez mais em falta é o caráter, a honestidade e o pensar coletivamente.

Vou dar exemplo claro. Numa dessas manhãs, vinha para o trabalho e parei no sinal de trânsito. Olhei de lado e percebi que um outro veículo, sutilmente ou descaradamente como prefiram, ultrapassou o sinal vermelho. É óbvio que tal motorista não ponderou os riscos que essa atitude poderia provocar naquele momento.

Essa cena se repete a cada instante nos pequenos e grandes centros urbanos. Assim como, não é novidade dizer que a grande maioria dos motoristas não respeita os limites de velocidade estampados nas sinalizações.

Isso me fez lembrar o pensamento de Immanuel Kant, filósofo alemão (1724-1804), que fez uma distinção entre o que é moral e o que é legal. Para ele, a lei moral “sem nos prometer ou ameaçar algo, exige de nós um respeito desinteressado”. Na prática agimos por uma CONSCIÊNCIA MORAL ou por MEDO DE UMA PUNIÇÃO LEGAL?

Esse descaso às normativas do Estado e da boa convivência social se aplica a todas as instâncias e situações. Na política, encontramos a aplicação mais concreta desse “jeitinho brasileiro”. Quem nunca ouviu a frase: “Ele rouba, mas pelo menos faz alguma coisa” – percebam o nível de desesperança que nos assola. A troca de favores, as licitações fraudulentas, os acordos espúrios e mensalões são apenas algumas facetas desse lado podre do Brasil que precisa ser expurgado para não contaminar a boa índole que ainda resiste.

Tempos cinzentos esses…
Internacionalizamos o “jeitinho brasileiro”, cabe agora purificar o sentido da expressão, deixar de olhar para o próprio umbigo e potencializar o jeito bonito e saudável de ser brasileiro.

 

César Augusto Rocha
Presidente do CNLB/NE e secretário Pastoral da Diocese de Tianguá