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Glorificai a Deus com as vossas vidas (2)

Na primeira parte deste artigo, publicada na edição anterior, iniciamos a reflexão sobre as dimensões sacramental e existencial do culto a Deus.  Nesta edição, concluiremos este estudo, refletindo sobre o fundamento do sacrifício, a característica do rito romano e a presença do cristão no mundo.

A salvação em pauta sacramental (3º passo)

É no interior que se dá o fundamento do sacrifício, do qual o sacrifício exterior se torna imagem, concretização, manifestação. Paulo diz aos Coríntios que não adianta entregar o corpo às chamas sem o amor (cf. 1Cor 13,13). O rito e o símbolo encontram sua razão de ser no interior do coração onde a Palavra de Cristo deve ressoar. Culto exterior há de se harmonizar com culto interior e vice versa. O mesmo Cristo que se entregou à morte de cruz, entregou-se antes à vontade do Pai no Monte das Oliveiras. Ao sacrifício de sua vida precede o sacrifício de sua vontade. Sem esta primeira norma interior, os ritos e símbolos restarão vazios. Mas a decisão do Tabor de fazer a vontade do Pai concretizou-se na cruz. A oferta que do coração de Cristo se originou, tornou-se lava-pés, pão partido, vinho distribuído, corpo ferido de morte. Quem saberia do ocorrido no coração sem a cruz, ou da obediência sem o lava-pés, ou do amor sem o pão?

A lógica da encarnação (Jo 1,14) remete à dualidade sacramental da salvação: olhar o homem de Nazaré e ver o Pai. Olhar o torturado da cruz e ver o Filho de Deus. Olhar os gestos do Senhor e ver o amor, tão perto, sensível, palpável… A norma da interioridade, do espírito, da fé, humildemente se submete à condição humana, onde os sentidos não são negados, mas afirmados! O que vimos, o que ouvimos, o que nossas mãos apalparam do Verbo da vida… (cf. 1Jo 1,1-4s.).

A nobre simplicidade dos ritos (4º passo)

É bom nos perguntarmos pela principal característica do rito romano, ou mesmo pela repetibilidade dos ritos. Não é um rito elaborado que esmiúça tudo detalhadamente, mas sugere “a quem tem ouvidos”. Não é um rito que comporta modismos e novidades, muito embora sejam introduzidas ao nosso bel prazer e mal gosto. Se repete, quase à exaustão, até deixando a alguns insatisfeitos… Talvez assim a liturgia queira nos dizer: não é no Tabor que temos de nos demorar, mas no caminho para a cruz.
Antigamente, a missa era concluída com o “Ite Missa est”. Tradução livre: Isso é a missa. A afirmação propunha a “deixa”, o reticente e não dito: “agora começa a missão”. O novo rito, mais explicitamente diz: “Glorificai a Deus com as vossas vidas. Ide em paz e o Senhor vos acompanhe”.

Ofertai vossos corpos: do rito à vida (5º passo)

Um elemento simbólico sai da celebração para o mundo: as pessoas que tomaram parte dos ritos e símbolos. Levam em si mesmas a Palavra, o Corpo e Sangue doados, a Paz evocada entre os irmãos… O corpo dos fiéis se difunde na capilaridade do mundo: lá onde falta presença, estar junto; onde abunda a escuridão, luz; onde se derramam lágrimas, consolo; onde lateja dor, conforto; onde reina a dúvida, o serviço da fé; onde se derrama o ódio, a oferta de amor; onde a violência e a injustiça, a verdade e a paz como dom… Feitos sacramentos de Cristo, imagem daquele que é sacramento do Pai, os cristãos, outros cristos no mundo, continuam seu culto espiritual principiado na celebração. Derrama-se o vinho bom do esposo Cristo sobre a esposa humanidade, na taça da vida dos fiéis. Um culto que se prolonga…