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Francisco e a política do Oriente Médio

 

Em recente visita ao Oriente Médio, o Papa Francisco deu amostra de por que está atraindo atenções ao redor do mundo. Simples, carismático e dotado de um discurso afinado com os tempos modernos, o líder máximo da Igreja Católica reúne tais qualidades de maneira espontânea. Porém, na viagem em questão, o sumo pontífice proporcionou a todos uma valiosa lição política. Inicialmente, Francisco fez a primeira pausa de sua viagem na Jordânia. Como poucos estadistas, Francisco destacou a generosidade desse país, ao acolher ao longo de décadas várias levas de refugiados de países vizinhos. Destacando tal acolhida, o Papa trata não só dos conflitos que expulsaram tantos de seus lares, como também da carência de apoio mútuo da qual padece a espécie humana.

 

Assumir que as pessoas podem se indispor, de forma profunda e definitiva, devido a fatores como a religião e a origem étnica, significa deixar que a guerra se imponha sobre o mundo

O mais importante, entretanto, foi dito ao se encontrar com as lideranças de Israel e da Autoridade Nacional Palestina. A Mahmud Abbas e a Shimon Peres, Francisco fez um simples convite: que fossem ao Vaticano para rezar juntos. O gesto singelo, quanto mais analisado, mais politicamente importante se torna. À primeira vista, uma autoridade do clero católico convidando um fiel muçulmano e outro judeu para orações significa uma mensagem de união pela fé, mesmo que os ritos de cada doutrina possam indicar grandes diferenças entre os três credos. Subjacente a essa ideia, entretanto, vem a mensagem principal: se a fé é igual, então todo conflito é apenas político, portanto, solúvel pelos homens. Sendo assim, não é a religião que nos separa, mas sim o desejo de dominação sobre territórios, seus habitantes e riquezas.

Por simples que pareça essa declaração, é preciso destacar que sua obviedade está cada vez menos evidente no mundo de hoje: rivalidades ditas religiosas são responsáveis por dezenas de focos de tensão espalhados pelo globo, alimentando guerras e causando mortes. Na verdade, o discurso religioso não passa de uma ferramenta de propaganda, empregada por grupos políticos opostos para arrebanhar mais seguidores.

A afirmação política de Francisco é tão importante, que pode ser expandida para outros campos, como o dos conflitos supostamente étnicos: até os dias de hoje, ainda é comum ver analistas políticos e autoridades se referindo às guerras civis africanas como “questões tribais”, e assim reafirmando a incapacidade de africanos de culturas distintas conviverem em uma mesma nação. Na verdade, é o oposto que ocorre, pois são exatamente os grupos políticos que usam a retórica da diferença étnica para obter apoio popular. Fosse real essa aversão entre etnias, qualquer conciliação seria impossível; porém, essas ocorrem com a frequência própria do jogo político.

Conflitos e soluções partem de ideias, assim como das opções que essas nos permitem perceber na realidade. Assumir que as pessoas podem se indispor, de forma profunda e definitiva, devido a fatores como a religião e a origem étnica, significa deixar que a guerra se imponha sobre o mundo apenas porque nos recusamos a refletir sobre conceitos tão simples.

 

Paulo Diniz
Bacharel em Relações Internacionais (PUC Minas)
Mestre e Doutorando em Ciências Sociais (PUC Minas)
(artigo publicado originalmente pelo  jornal “O  Tempo”)