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Evento da salvação ou festas das ideias?

 

A liturgia celebra o memorial da Páscoa de Cristo. A história da salvação atravessa o ano litúrgico, as orações, os ritos e os símbolos da Igreja, como evento ao qual nos remetemos quando celebramos os sacramentos, os sacramentais, as exéquias e a Liturgia das Horas. Isso ocorre de tal modo que podemos identificar a vida de Cristo com os tempos litúrgicos: encarnação – tempo do Natal, missão – tempo Comum, paixão – tempo da Quaresma, morte e ressurreição – tríduo pascal e tempo pascal, envio do Espírito Santo – Pentecostes, expectativa pela primeira e segunda vindas – Advento.

 

Essa lógica dominante da liturgia é, contudo, rompida pelas chamadas “festas das ideias”. Como exemplo temos as grandes solenidades da Santíssima Trindade e de Corpus Christi. De que tratam? Não do evento da salvação, em estrito senso, mas de formulações teológicas que a Igreja, ao longo dos séculos agregou ao seu patrimônio litúrgico. Sobressai nestas festividades mais o aspecto doutrinal do que o salvífico. Exemplo disso é o prefácio da Solenidade da Santíssima Trindade: Com vosso Filho único e o Espírito Santo sois um só Deus e um só Senhor. Não uma única pessoa, mas três pessoas num só Deus. Tudo o que revelastes e nós cremos a respeito de vossa glória atribuímos igualmente ao Filho e ao Espírito Santo. E, proclamando que sois o Deus eterno e verdadeiro, adoramos cada uma das pessoas, na mesma natureza e igual majestade. Unidos à multidão dos anjos…

 

É tarefa da Equipe de Pastoral Litúrgica e dos padres orientar essas celebrações para o mistério da salvação, seja pelas monições, seja pela confecção das preces, seja pela escolha dos cantos ou pela escolha dos ritos que podem ser modificados

É tarefa da Equipe de Pastoral Litúrgica e dos padres orientar essas celebrações para o mistério da salvação, seja pelas monições, seja pela confecção das preces, seja pela escolha dos cantos ou pela escolha dos ritos que podem ser modificados. No caso da Solenidade da Santíssima Trindade, por exemplo, convém observar:  os cantos do Hinário da CNBB que garantem, com segurança um repertório adequado à celebração;  cantar a saudação inicial, de caráter trinitário. Seria bom cantar a versão proposta pelo missal que nos oferece a partitura;  na homilia estar atentos à experiência de Deus que evolui ao longo da história da salvação: Moisés (1ª leitura), Jesus como dádiva do amor de Deus ao mundo (Evangelho), a comunidade de fé como lugar da experiência do Deus uno e trino (2ª leitura).

Na ornamentação da Igreja, seria bom colocar o ícone da Santíssima Trindade de Andrei Rublev diante do ambão, ornado com três velas, flores e incenso.

As preces valorizem a dinâmica oracional da Igreja: o Espírito nos move para que, em Cristo nos dirijamos ao Pai.
Ainda que esta festa já tenha sido celebrada, vale o exercício ver como aproximar uma celebração da ideia em memorial do evento salvífico.

 

Pe. Danilo César
Liturgista