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Eu posso mas não sei, não acredito

O que não me destrói me fortalece. Todos nós costumamos lamentar nossas perdas, frustrações, erros e fracassos. Mas haverá um dia em que iremos nos ajoelhar e agradecer pelas dificuldades porque passamos. Haverá um dia em que iremos enxergar uma deficiência como um estágio de aprendizado, um privilégio, em vez de repetirmos a fala comum: “Que pena!” “Por que isso aconteceu comigo?” “Eu não valho nada…” “Por que Deus fez isso comigo?”

 

Haverá um tempo, em que nós seremos educados para perceber todas as nossas experiências como pequenos sinais, grandes mensagens que nos alertam para mudarmos nossos pensamentos, nossas ações e palavras, nossa posição diante dos desafios e das outras pessoas.

 

Um montanhista, com mais de 80 anos, de Curitiba, conhecido por Vitamina, foi perguntado numa entrevista:
– Quantas vezes o senhor chegou ao topo?
– Quantas montanhas, quantas vezes o senhor escalou?
Ele foi sábio em sua resposta:
– Eu não contabilizo as chegadas. Isso não importa para mim. Eu faço pelo prazer de contemplar o caminho. Eu quero ser premiado por novos olhares, novas paisagens que ainda não me foram agraciadas.

 

Se eu sou o que me é permitido perceber, então, depende de mim educar minha percepção para aprender sempre uma nova lição. Mas nós fomos educados para obter notas e nos compararmos com nossos colegas. Éramos estimulados a competir com o colega em vez de percebermos as capacidades que estávamos desenvolvendo e demonstrando. Quando produzíamos um texto, uma manifestação oral, quando resolvíamos certos problemas, não recebíamos um retorno sobre o modo como fizemos, o processo de aprendizagem, o caminho. Recebíamos ou uma nota, ou um X para Certo ou errado.

 

Não nos ensinaram a amar os problemas, pois disso somos feitos! Não nos ensinaram a amar o trabalho, pois nossos professores o enxergavam apenas como sacrifício e sofrimento. Se o trabalho me constitui, então, preciso amar o que é parte de mim. Livrar-se do trabalho é como negar o direito de ser. Negar o trabalho equivale a negar a si mesmo. O topo tem lugar para todos. O topo pode ser onde estamos, mas não o percebemos.
 

Entendo que seja importante compreender, não apenas julgar e classificar se aquela pessoa é melhor do que outra, superior ou inferior a você. Quem compreende aprende

Uma professora do Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE), do Estado do Paraná, falava-nos sobre o impacto da deficiência sobre seu imaginário. Ela dizia que a deficiência, assim como outra situação inesperada, remete à necessidade de compreender a razão, os motivos que justificam umas pessoas serem dotadas de amplas condições biológicas e outras apresentarem tantas limitações. Ela acrescentava que a presença de uma pessoa com deficiência tornaria as outras pessoas com maior sensibilidade.

 

Eu entendo que seja importante compreender, não apenas julgar e classificar se aquela pessoa é melhor do que outra, superior ou inferior a você. Quem compreende aprende. Quem apenas julga fica com o preconceito. Quem julga perde a oportunidade de conhecer o outro. Compreender as causas, os determinantes da produção social da deficiência é uma atitude política fundamental para defender o direito dessas pessoas usufruírem dos benefícios já compartilhados por outras pessoas.

 

Não considero ética a tentativa de compreender por comparação, posicionando uma como superior e outra como inferior. Mas a deficiência, assim como outras diferenças, quando percebida ou observada auxilia a tomada de consciência:
O que eu sou….
O que eu posso…
O que eu preciso…
O que eu necessito…

 

Essas três dimensões propiciam a pessoa a perceber a si mesma e os instrumentos, os princípios, as crenças, os valores dos quais se utiliza para defender o que é e, ao mesmo tempo, lutar pelo que precisa.
Quem não sabe o que é, não se defende.
Quem não sabe o que precisa, não luta para obtê-lo.
Quem não sabe o que deve não cumpre sua responsabilidade.
Quem não conhece do que é capaz, não se aperfeiçoa no exercício de uma atividade social.
Quem não recebe essa mediação do professor, sai da escola com o sentimento de Menos, Não consigo, Não Posso…

 

Prof. Dr. Paulo Ross
Professor do setor de educação da
Universidade Federal do Paraná