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Esperança: força ou alienação?

As palavras soam e significam diferentemente em contextos culturais. No mundo cristão, três virtudes recebem o titulo de teologais e ocupam lugar de proeminência. Encontram fundamento nas cartas de São Paulo, quando ele as exalta: “atualmente permanecem estas três: a fé, a esperança, o amor. Mas a maior delas é o amor” (1Cor 13,13).

Antes de aprofundar a beleza dessa virtude cristã, ouçamos a voz de outros rincões. A. Comte-Sponville foca a esperança como fonte de alienação. Ela impede a felicidade. Supõe a ausência do objeto, por isso encerra ilusão. Esperar, em última análise, é não fruir, não poder, não saber. Assim alguém se diz: espero gozar ótimas férias, mas ainda não o fez. Pior ainda, nem sabe se vai consegui-lo. Nem pode também torná-las felizes. Às vezes, acontece tudo ao contrário do que esperávamos.

Então, a felicidade está no imediato sabido, vivido e controlado por nós. Nada de esperança. Supõe o oposto do que diz a esperança. Implica a presença do objeto, o conhecimento dele e o domínio sobre ele.

Onde está então o sentido da esperança? Por que duas posições a veem em total oposição? Que sobra numa e falta na outra, e vice-versa? Ambas as posições possuem real inteligibilidade e plausibilidade. Portanto, não se trata de ignorância, nem de atitude voluntarista. E agora, José?

 

A virtude da esperança não se funda nas nossas possibilidades e virtualidades, mas unicamente no infinito amor de Deus. Esperar é crer no amor de Deus

A raiz última da radical diferença advém do fundamento da existência. Se realmente o último que torna inteligível e real a vida humana se encontra no próprio ser humano, então Comte-Sponville tem razão. Esperar soa realmente alienante. Transferimos ilusoriamente para fora de nós a fonte da própria felicidade que está em nós. Não tem sentido de pô-la no futuro. Submetemo-nos à banal magia. Como imaginar que passarei no Enem por intervenção de alguma força além do meu estudo e preparação? Como sonhar com viagens maravilhosas sem programar-me, dispor de recursos econômicos para tanto? Nada de esperança. Puro realismo presente. Aí se encontra a fonte da felicidade. Vale do mundo da pura imanência. Ponto final.

Mas, se existe uma Realidade maior, um Transcendente de quem viemos e para quem voltaremos, e que nos acompanha em todos os momentos, embora desconheçamos o futuro, não contabilizemos racionalmente os meios para o fim, entregamo-nos confiantes a ele, como a criança  nos braços da mãe.
 
A virtude da esperança não se funda nas nossas possibilidades e virtualidades, mas unicamente no infinito amor de Deus. Esperar é crer no amor de Deus. Significa ter a certeza de que aconteça o que acontecer, Deus está presente. Em todas as realidades humanas existem sementes do Verbo divino. E nelas aposto. E por isso, nenhuma situação se fecha totalmente à esperança e nos aprisiona no desespero. O exemplo por excelência aparece no último gesto de Jesus.

Homem religioso, as autoridades judaicas o expulsam da religião judaica. Fica fora de qualquer referência religiosa institucional. Homem piedoso, encontra-se no maior abandono de Deus e escuridão interior. Em que ou em quem esperar? “Jesus deu um forte grito: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23, 46). Morre, esperando em Deus. Com tal esperança enfrentamos qualquer situação.

 

Pe. João Batista Libanio, SJ
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)