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Esperança e evidência

Nossa mente cientificista normalmente recusa-se a reconhecer como “real” tudo o que não seja sujeito à experiência e comprovação. “Se …, então, …”, afirma a experimentação em que cremos. Até aí, nada além da mais simplória evidência científica. Os problemas começam quando utilizamos a mesma forma de leitura para o que não é científico: sentimentos, vida, acontecimentos, reações, amor.

Ao somar 5 e 6, obtenho o resultado 11. Ao somar indisposição física e emocional e barulho de crianças no nosso pé de ouvido, o resultado será irritação, impaciência, talvez gritos. Se, na mesma situação, somo à zoada dos pirralhos boa disposição física e emocional, o resultado será participar da brincadeira e ainda convidar todas para a praia ou para um passeio no parque.

A leitura cientificista da vida nos blinda em universo imanente. Blindado, nosso olhar não enxerga nada para além do possível, comprovável, previsível, imanente. O presente tende a resumir-se no aqui e agora que não dá espaço a sonhos, fantasias, imaginação, esperança. O futuro passa a ser mera consequência do presente.

 

Se fizer tudo como devo, terei futuro que chamo de feliz. Se aplicar bem meu dinheiro hoje, terei porvir que classifico como tranquilo. Se educar meus filhos dentro dos padrões que considero adequados eles serão o que considero felizes e adequados. Em outras palavras, vivo na imanência do que depende de mim, como se tivesse controle sobre todas as variáveis do tempo, espaço, cultura, outras vidas, liberdade alheia. Sou um ser imanente, com uma visão imanente da vida. Sou meu próprio Deus. Iludo-me em ter o mundo em minhas mãos, em ter o controle de tudo!

Quando queremos
ter a vida em nossas mãos, fechamo-nos
para as surpresas de Deus

“Quando queremos ter a vida em nossas mãos, fechamo-nos para as surpresas de Deus”, diz o papa Francisco. Em bom português: quando insistimos em uma leitura meramente pragmática, cientificista da vida, fechamo-nos na imanência e não damos espaço à transcendência. Trocamos a esperança pela evidência. Blindados, intolerantes, escravos de nossa lógica à qual atribuímos poderes muito além do razoável, temos como tolice, pré-científico, fuga da dura realidade todo tipo de visão transcendente da vida.

Quem admite, humildemente, a transcendência, aceita a evidência. Contudo, no que a ela escapa, adere à esperança. Conhece sua pequenez e a grandeza de Deus, em quem crê como alguém que é amor e que é um com a pessoa humana em qualquer situação. A familiaridade com o Pai o faz esperar contra toda esperança, pois sabe que, por amor, Deus é capaz do impossível. Sua história de vida ensina-lhe que “a esperança jamais decepciona”, como ensina Paulo.

Este vive feliz, seguro, despreocupado, aberto ao amor, confiante porque acolhe o Pai que lhe propõe a transcendência. Conhece e vive a esperança. Aquele, o que pretende ter a vida em suas mãos, o cientificista, o que não acolhe o Pai, nem bem encontra um obstáculo às suas expectativas, tende a desequilibrar-se.

Evidência ou esperança; orfandade ou amor de Pai; intolerância ou compreensão; solidão ou amor; desespero ou confiança; imanência ou transcendência. Onde estamos?

 

Maria Emmir Oquendo Nogueira
Cofundadora da Comunidade Católica Shalom
Jornal “O Povo” on line