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Ensinamento de Santo Afonso sobre a oração (4)
As condições da oração: a confiança

Afirmamos, na edição passada, que o humilde desconfia de si mesmo, sabe de que é feito, reconhece suas fragilidades e pecados. Por isso, se mostra audacioso na sua busca de Deus. E sua arma não é outra coisa, senão a confiança. Santo Afonso afirma: “a oração deve ser confiante”.

Segundo nosso santo, Jesus nos ensinou o modo de obter todas as graças de que necessitamos para alcançar a salvação. Ele não nos ensinou a chamar Deus de “Senhor” ou “Juiz”, mas de Pai nosso. Jesus quer que busquemos a Deus de modo familiar, com aquela confiança com a qual um filho pobre ou enfermo pede remédio e alimento ao próprio Pai.  Se um filho sente fome, basta que recorra a seu Pai para ser imediatamente socorrido.

Deus, Pai amoroso, nunca nos abandona, mas permanece atento a nossas necessidades. “Todo aquele que pede recebe; quem procura acha; e ao que bate abre-se a porta. Quem de vós dará uma pedra ao filho que lhe pedir pão? Ou lhe dará uma cobra, se lhe pedir peixe? Ora, se vós que sois maus sabeis dar coisas boas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará coisas boas aos que lhe pedirem” (Mt 7,8-11). Para receber quanto buscamos, basta a confiança. Mas qual o fundamento dessa confiança? A bondade de Deus, responde Santo Afonso.  Ele é fiel a suas promessas, não volta atrás em sua palavra. Ele disse que aqueles que pedem, recebem.

“A oração que Deus sempre atende é
aquela na qual
pedimos as graças necessárias à
nossa salvação”

Santo Agostinho perguntava: “E quem poderia temer que lhe faltasse aquilo que é prometido pela própria verdade?”.  Mas aqui se esconde o grande risco da petição. Santo Afonso, fiel à Sagrada Escritura, não afirma que receberemos qualquer coisa que pedirmos a Deus. Se assim fosse, Deus ficaria à mercê de nossos caprichos e interesses egoístas. Teria que cumprir a agenda dos nossos desejos, submetendo-se a nós. Que devemos, portanto, pedir a Deus com a segurança de que receberemos? Nosso doutor da oração responde: a salvação. “Quer o Senhor conceder-nos a salvação e todas as graças para a salvação, mas quer que sejamos perseverantes na oração”.

O santo afirma que a oração que Deus sempre atende é aquela na qual pedimos as graças necessárias à nossa salvação, porque se trata do maior bem que Deus nos pode conceder: fazer-nos participar da sua vida, admitindo-nos à comunhão com ele. Nisso consiste o bem maior ao qual devemos aspirar.

Santo Afonso não nos ensina a ser ingênuos e infantis na relação com Deus, como é o caso daqueles que exigem de Deus a satisfação de todos os seus desejos para que creiam. Não. Afonso nos quer adultos e nos encoraja a orar buscando as graças necessárias à nossa salvação. Assim ele entende o texto de Lc 11,9:  “Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto”. Se perseverarmos na oração, Deus acabará nos introduzindo no seu mistério no qual seremos salvos. “A promessa divina de atender nossas orações não serve para as graças temporais, mas somente para as espirituais, necessárias ou úteis para a salvação da pessoa”.

 

A força da oração não se encontra no mérito de quem ora, por isso Afonso aconselha os pecadores a não desanimarem. A força da oração está unicamente na misericórdia de Deus.

Mas por que Jesus insiste, exortando-nos: “buscai”, “batei”?  Porque o Redentor quis que nos aproximássemos de Deus como fazem os pobres, que vão mendigando. Esses não desistem, batem na porta até que a porta lhes seja aberta. O pobre não tem medo de se tornar inoportuno. Ele vence pela insistência. Exatamente isso nos pede o Senhor: “que oremos e que voltemos a orar, que não deixemos jamais de pedir que ele nos assista, que mantenha sua mão sobre nós, que não permita que nos separemos dele pelo pecado”.

E se formos pecadores, receberemos o que pedimos na oração? A doutrina de Santo Afonso é muito otimista. Se o pecador buscasse a ajuda de Deus para permanecer no seu pecado, não seria atendido. Por exemplo, se alguém pede a Deus ajuda para se vingar do inimigo. Essa oração jamais será atendida, porque contradiz a salvação que Deus quer conceder a todos. Deus não quer o mal, em nenhuma hipótese. Essa oração estaria em contradição com o Evangelho: “Amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai sem esperar coisa alguma em troca” (Mt 6, 35).  Quando, pois, o pecador é atendido? Quando pede por sua salvação. A promessa de Jesus foi feita a todos: quem pede, recebe (cf. Lc 11, 10).

A força da oração não se encontra no mérito de quem ora, por isso Afonso aconselha os pecadores a não desanimarem. A força da oração está unicamente na misericórdia de Deus que, por sua bondade, prometeu atender aquele que ora. Não é necessário ser amigos de Deus para orar, a oração nos torna seus amigos. O que não se obtém pela amizade, se obtém pela oração que, pouco a pouco, nos transforma e nos faz íntimos do próprio Deus. É preciso tudo esperar de Deus, até a salvação dos pecadores. Santo Afonso nos ensina que o segredo da oração se enraíza na confiança em Deus, na confiança audaciosa que nos faz mergulhar na sua bondade e misericórdia. 

 

Pe. Paulo Sérgio Carrara, CSSR
Professor na FAJE e no ISTA, em Belo Horizonte