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Em busca do essencial

Vivemos um tempo que marcado pela correria, barulho, preocupação, movimento. É tempo dos fast-food, das mensagens rápidas, do sono curto, da curtição… Em certos momentos não se sabe onde se agarrar. No meio de tantas possibilidades e caminhos, sentimo-nos vazios e incompletos. Depois de toda a curtição, sentimos a cabeça inchada e o coração cheio de espaços vazios e, às vezes, até sem sentido. Não porque fizemos coisas erradas. É que, com freqüência, fazemos muitas coisas ao mesmo tempo e não desfrutamos de nenhuma. Passamos pela superfície de uma variedade de situações e fazemos experiência profunda de muito pouco. Ficamos no meio de milhares de pessoas e não experimentamos a presença de ninguém. Por isso nos sentimos pobres de caráter e de espírito. Também por isso nos sentimos vazios e desejosos de preencher a existência com alguma coisa que nos faça encontrar sentido.

 

Há que se ter um cuidado necessário: o mundo não nos dá tempo para a profundidade. E com toda a rapidez do nosso tempo, é desafiador mergulhar na profundidade das coisas

Muitas veze tesmos medo de encarar certos aspectos de nossa pessoa, das nossas relações e das nossas responsabilidades. Não raro, sentimo-nos até medíocres, ou seja, sem coragem de decidir, sem opções claras. Não seria conseqüência da falta de profundidade naquilo que fazemos? Não é verdade que somos “rasteiros” e “superficiais” em muitas situações da vida que mereciam mais atenção?

Há que se ter um cuidado necessário: muitas pessoas e sistemas organizados não querem que sejamos pessoas profundas. Preferem que fiquemos na superfície, na margem. Eles não gostam dos “mergulhadores da vida”. Mais do que nunca, precisamos ser pessoas que mergulham fundo, que saem da superfície e procuram águas mais profundas, que vão para além do aparente e palpável.
Mas, há um pré-requisito fundamental: o cultivo da interioridade. Isto é, ser capaz de cultivar uma solidão saudável; procurar criar espaços para a reflexão e o silêncio. Num mundo cada vez mais barulhento, urge tomar conta do coração e da mente.

Cultivar o silêncio é perigoso. Pois ele nos coloca em contato com nosso mundo interior, nossa consciência e nos leva a ler a vida a partir de outra perspectiva.

Você tem facilidade de ficar em silêncio ou é daquelas pessoas que fazem de tudo para evitá-lo? Se você é do segundo grupo, atenção!

Dificilmente alguém será capaz de “mergulhar em águas mais profundas”, de tomar decisões sérias na vida, de prestar atenção nos demais e mesmo experimentar a presença de Deus se não cultivar momentos de solidão, de silêncio interior e exterior, de contemplação e de reflexão. Todos nós precisamos de um espaço e de um tempo para o encontro conosco mesmos. Só assim seremos mais habilidosos em tomar a vida pela mão, a construir e viver a história.

 

Exercite o olhar, sem julgamento ou preconceito. Deixe-se maravilhar com o simples e com o grandioso Permita-se tocar pelo sofrimento dos demais, perdoar, compreender e acolher, simplesmente

Cultivar a interioridade nos ajudará a cultivar a transparência, a coerência, o testemunho, a liberdade e a capacidade de amar. Somente uma interioridade sadia nos torna capazes de encarar os desafios e vicissitudes que a vida proporciona. É a partir de experiências interiores profundas que vamos ser capazes de sair da superfície das coisas e dos acontecimentos e mergulhar na sua dimensão transcendente.

O cultivo do silêncio interior nos ajudará a um melhor e mais significativo encontro conosco mesmos, com Deus, com os demais e com todas as criaturas. Na verdade, esse é o caminho que vai nos possibilitar a lidar melhor com o marasmo, a preguiça, a falta de compromisso e a indiferença que às vezes toma conta do nosso coração.

Esse é o caminho da busca do essencial. Como é dito no Pequeno Príncipe: “o essencial é invisível aos olhos; só se vê bem com o coração”. Verdade eterna! Condição impres-cindível para quem deseja viver a vida em profundidade.

Comece agora, então! Exercite um pouco mais o olhar, de forma simples: contemplar o pôr-do-sol, uma noite estrelada, as flores… Observar os animais, os movimentos, as cores. Olhar nos olhos das pessoas, especialmente os pobres. Maravilhar-se com uma criança, uma obra humana, uma conquista. Deixar-se tocar pelo sofrimento dos demais, perdoar, compreender, escutar e acolher, simplesmente. Respirar conscientemente, descansar, correr, sorrir, brincar… Deixar o corpo vibrar com os sons de uma boa música, ou mesmo com o barulho ensurdecedor da grande cidade. Ler uma poesia, ver fotos antigas, contar e escutar histórias. Permitir que o coração pulse com os sinais de vida ou de morte, com as belezas e misérias, com as experiências de alegria e mesmo na dúvida.  Cultivar a compaixão e o cuidado, necessários para mantermos o coração aquecido, bom e infinito.

 

 

Vanderlei Soela
psicólogo, pedagogo, escritor, mestre em Aconselhamento Pastoral,
professor de Gestão de Pessoas, Liderança, Sustentabilidade e Ética