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O amor não é um substantivo abstrato; é concreto. E, como tal, tem necessidade de direcionar sua potência para o sujeito da oração.

“Durante as noites, no meu leito, busquei aquele que meu coração amava.
Vou levantar-me e percorrer a cidade (…) em busca daquele que meu coração ama.

Encontrei aquele que meu coração ama. Segurei-o, e não largarei” (Cant. 3,1-4a)
Amar também é verbo. Por isso, eu amo, tu amas, ele ama, nós amamos, vós amais e eles amam. Todo mundo ama. Na verdade, todos nascem para amar, pois todos foram criados pelo amor de Deus.

 

Reconhecer-se sedento não é suficiente para desempenhar uma busca. É crucial também a percepção do que se tem sede

Há no coração humano uma sede de amor que o torna inquieto e o faz buscar a saciedade. Tal busca, se mal direcionada, pode culminar no aumento generalizado da sede, que cresce cada vez mais, na medida em que se afasta da fonte que sacia verdadeira e definitivamente.

Reconhecer-se sedento não é suficiente para desempenhar uma busca. É crucial também a percepção do que se tem sede. Água de côco, suco ou refrigerante podem enganar ou minimizar, mas não há nada que substitua um copo de água quando se está com muita sede. O corpo pede água potável, e por mais possível que seja substituí-la por outros líquidos, o corpo parece esperar pelo momento em que receberá a água pura.

Da mesma forma, o coração humano é sedento do amor de Deus. Sede que, quando saciada por outros tipos de amores, é insaciável. Por mais que se ame ou se seja amado, nunca é suficiente; se quer sempre mais, de maneira que a busca pelo amor se torna exaustiva e consome as forças e as esperanças. É uma busca cansada, que faz aumentar cada vez mais a sede.

 

A busca do coração humano é a busca por Deus. Como o corpo precisa de água, a alma precisa de Deus

A iniciativa da busca, no entanto, bem direcionada, conduz à fonte que sacia.  Não é possível buscar o Senhor e não encontrá-lo, afinal, ele mesmo convida: “Todos vós, que estais sedentos, vinde à nascente das águas” (Is 55,1a), e ele mesmo se manifesta àqueles que o buscam: “Buscai ao Senhor, já que ele se deixa encontrar” (Is 55,6a).

A vida sem o amor de Deus torna-se descaracterizada, pois, em si, está ausente sua própria razão de ser: “porque vossa graça me é mais preciosa que a vida” (Sl 62,4a).

A busca do coração humano é a busca por Deus. Como o corpo precisa de água, a alma precisa de Deus: “Ó Deus, vós sois o meu Deus, como ardor vos procuro. Minha alma está sedenta de vós, e minha carne por vós anela como a terra árida e sequiosa, sem água” (Sl 62, 2).

O amor de Deus penetra o coração e sacia a alma plenamente. Ao experimentar esse amor, o coração humano não quer largá-lo jamais porque o reconhece como o principal motivo de continuar batendo.

Uma vez saciado pelo amor de Deus, o coração está pronto, então, para experimentar as outras formas de amor criadas por Deus: conjugal, familiar ou de amizade; todos eles consequências diretas do amor puro, real e essencial direcionado por Deus a seus filhos amados.

“Assim vos bendirei em toda minha vida; com minhas mãos erguidas vosso nome adorarei. Minha alma saciada como de fino manjar, com exultante alegria meus lábios vos louvarão” (Sl 62,5-6).

 

Renata M. B. Torres
Comunidade Católica Alpha e Ômega