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Duas mesas, um só ato de culto

Revalorização da Mesa da Palavra – (1º passo)

A celebração da Eucaristia é o memorial da Nova Aliança do sangue de Cristo. Como rito da Aliança, ela comporta dois momentos distintos que chamamos de liturgia da Palavra e liturgia Eucarística. Antes da reforma Conciliar, a liturgia da Palavra era pouco valorizada, chamada de “ante missa” ou “missa didática”, era compreendida quase que como um preâmbulo, ou uma lição de boas condutas. O lecionário era bastante deficitário: o Evangelho de Marcos praticamente não era proclamado, e textos importantes como a ressurreição de Lázaro não figuravam no rol de leituras1. Felizmente, a Igreja redescobriu o valor da Palavra de Deus na missa e, no rito de Paulo VI, restituiu seu lugar na liturgia da Missa:

A Missa consta, por assim dizer, de duas partes, a saber, a liturgia da palavra e a liturgia eucarística, tão intimamente unidas entre si, que constituem um só ato de culto. De fato, na Missa se prepara tanto a mesa da Palavra de Deus como a do Corpo de Cristo, para ensinar e alimentar os fiéis2.

O rito da Palavra, como o conhecemos hoje, está esquematicamente assim organizado:

 

1ª Leitura
Salmo responsorial
Segunda Leitura
Aclamação ao Evangelho
Evangelho
Homilia
Silêncio sagrado
Credo
Oração dos fiéis

Faremos tudo o que nos disse o Senhor! – (2º passo)

Para compreender o sentido teológico do rito da Palavra na liturgia, é preciso recorrer ao texto da Aliança no Sinai (Ex 24,1-11). Suspeita-se que perícope traga duas distintas tradições redacionais (javista e eloísta), que narram de maneira diversa o evento . Convém transcrever o texto para identificar suas partes e o “cruzamento” de narrativas:

1Ele disse a Moisés: “Sobe até o Senhor junto com Aarão, Nadab, Abiú e setenta anciãos de Israel, e vos prostrareis a distância. 2Apenas Moisés se aproxi-mará do Senhor. Os outros não se aproximarão, nem o povo subirá com ele”.

3Moisés foi transmitir ao povo todas as palavras e todos os decretos do Senhor. O povo respondeu em coro: “Faremos tudo o que o Senhor nos disse!” 4Então Moisés escreveu todas as palavras do Senhor. Levantando-se na manhã seguinte, ergueu ao pé da montanha um altar e doze colunas sagradas, segundo as doze tribos de Israel. 5Em seguida, mandou alguns jovens israelitas oferecer holocaustos e imolar novilhos como sacrifícios de comunhão ao Senhor. 6Moisés pegou a metade do sangue, colocou-o em vasilhas e derramou a outra metade sobre o altar. Tomou depois o livro da aliança e o leu em voz alta ao povo, que respondeu: “Faremos tudo o que o Senhor falou e obedeceremos”. Moisés pegou, então, o sangue, aspergiu com ele o povo e disse: “Este é o sangue da aliança que o Senhor fez convosco, referente a todas estas cláusulas”.

Moisés subiu com Aarão, Nadab, Abiu e setenta anciãos de Israel, 10e eles viram o Deus de Israel. Debaixo dos pés dele havia uma espécie de pavimento de safira, límpido como o próprio céu. 11E ele não estendeu a mão contra os israelitas escolhidos: eles puderam contemplar a Deus e depois comeram e beberam.

Sem notar as discrepâncias narrativas causadas pela junção dos dois relatos: dois ritos sacrificais (vv. 5-8.11), movimentação contraditória dos personagens (vv. 2-3) que, contudo não passam desapercebidas ao leitor mais atento, observamos alguns elementos que ajudam a entender o nosso rito da Palavra:

-Moisés leva ao povo a lei de Deus e proclama esta lei para que todos a ouçam. Este povo escuta e responde (diálogo), comprometendo-se a cumprir tudo aquilo que Deus lhes propõe com a afirmação: “Faremos tudo o que o Senhor nos disse!”, ou “Faremos tudo o que o Senhor falou e obedeceremos”.
–    O fundamento da Aliança entre Deus e o Povo é o cumprimento das cláusulas (a Lei, a Palavra de Deus) de ambas as partes. Isto é, portanto, um elemento indispensável ao rito da Aliança.

-A Aliança é selada com um rito sacrifical: num relato os animais imolados tem a metade seu sangue derramado sobre o altar e as estelas. A outra metade é aspergida sobre o povo. O sangue, símbolo de vida, manifesta a comunhão entre Deus e os seus eleitos. Já no outro relato, os notáveis de Israel fazem uma refeição com Deus. A refeição tem caráter conclusivo da Aliança.

-O caráter dialogal do rito: alguém propõe a Lei de Deus e os ouvintes respondem. Deus fala a seu povo e não fica sem resposta!

Deus enviou o seu Filho sujeito à Lei – (3º passo)

É a partir desse texto que se compreende o relato da instituição, quando Jesus, tomando o cálice diz: “Este cálice é a nova Aliança em meu sangue; todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em memória de mim” . A nova Aliança, realizada no sangue de Cristo, não se dá apenas do ponto de vista ritual. Por sua vez, sua morte na cruz implica uma decisão, uma resposta, uma postura diante da vontade de Deus. Aqui se situa o sacrifício de Jesus, quando voluntariamente decide realizar não a sua vontade, mas a vontade do Pai: amar até o extremo (cf. Jo 13,1), cumprir o caminho do Servo (cf. Is 63), dar a vida em resgate de muitos (citação). Mas é a Carta aos Hebreus que fala-nos da qualidade do sacrifício de Jesus Cristo:

5Por essa razão, ao entrar no mundo, Cristo declara: “Não quiseste vítima nem oferenda, mas formaste um corpo para mim. 6Não foram do teu agrado holocaustos nem sacrifícios pelo pecado. 7Então eu disse: Eis que eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade, como no livro está escrito a meu respeito” .

O sacrifício de Jesus alcança a perfeição porque realiza a vontade do Pai. É a sua decisão livre de abraçar a cruz e a morte que qualificam o Calvário. Muitos morreram crucificados no tempo de Jesus, outros tantos morreram injustiçados e incompreendidos. Mas a morte voluntária de Jesus, como oferta (sacrifício) que realiza a vontade daquele que o enviou, a torna singular. Pode-se perguntar: “Deus quis a morte do seu Filho?” A resposta é sim. Pois se Deus desejou a sua encarnação do Verbo, isto por certo inclui a morte.

Mas à pergunta: “Deus quis a violência, a maldade brutal, a rejeição em forma de tortura contra o seu Filho?”, haveremos de responder “Não. Como Pai amoroso, ao qual Jesus se confiou, Deus não poderia estar de acordo com tal resposta da humanidade”. Neste sentido, a vontade do Pai era sobretudo que seu Filho amado realizasse a sua vontade, cumprindo a Aliança. Isso só pode ser compreendido à luz do amor: “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,13), ou “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o extremo” (Jo 13,1); e ainda, “Ninguém me tira a minha vida, eu a dou livremente” (Jo 10,18).

Duas mesas um só ato de culto – (4º passo)

Hora de tirar as consequências de tudo aquilo que nos ensina a Sagrada Escritura e a Tradição da Igreja. O rito da Palavra na missa é estruturado segundo o diálogo da Aliança, onde Deus fala a seu povo e este lhe responde. Esquematicamente teríamos:

 

 

1Cf. De ZAN, Renato. “I molteplici tesori dell’unica Parola”. Introduzione al Lezionario e alla lettura liturgica della Bibbia. Pádua: Messaggero Padova, 2008, pp. 45-58.
2IGMR, 28.
3Cf. DEISS, Lucien. A Palavra de Deus celebrada. Teologia da Celebração da Palavra de Deus. Petrópolis: Vozes, 1998, pp. 44-47.
41Cor 11,25.
5Hb 10,5

Pe. Danilo César
Liturgista